Resumo: A bênção profética de Jacó a Judá (Gn 49.8–12) revela a surpreendente obra da graça: de um homem marcado por pecado nasce a linhagem real que culmina no Messias. O “Leão de Judá” recebe o cetro, vence inimigos e inaugura um reino de paz e abundância, cumprido em Cristo, o Leão-Cordeiro. Leia abaixo o artigo deste excelente e criativo escritor, Emílio Garofalo Neto, ministro presbiteriano e pastor da Igreja Presbiteriana Semear, em Brasília, DF. Formado em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, completou seu Ph.D. no Reformed Theological Seminary, nos EUA. É professor visitante em teologia pastoral no CPAJ.
Pulamos a bênção dada a Judá,[1] por ser a mais impressionante e importante de todas.
Vamos nos lembrar um pouco dele? Judá é um dos filhos de Jacó com Lia. O filho que foi se meter em negócios complicados pela terra de Canaã e se casou com uma pagã. Ele teve filhos perversos a quem o Senhor exterminou. Teve relações sexuais com sua própria nora, achando tratar-se de uma prostituta. Isso depois de tê-la enganado quanto à sucessão de filhos. Antes de ser exposto, cheio de justiça, exigiu a morte de sua nora quando a gravidez foi descoberta.[2] Até que ela virou o jogo e mostrou a todos que ele mesmo era o pai da criança.
A humilhação o quebrou e, no passar dos anos, vimos Judá se tornando algo mais impressionante — pela ação graciosa de Deus.
Quando os irmãos jogaram José no poço, Judá falou para não o matarem, mas o venderem como escravo (Gn 37.26,27).[3] Em Gênesis 44, quando José faz todo aquele esquema para prender Benjamim e colocar os irmãos em uma situação difícil, foi Judá quem disse que assumiria o lugar dele. Judá, efetivamente, mostrou que estaria disposto a dar a própria vida para salvar seu irmão e assegurar a felicidade de seu pai. Lembrar a história de Judá significa ver a maravilha da graça divina.
E então, quando Jacó falou sobre Judá, disse algo impressionante:
Judá, teus irmãos te louvarão;
a tua mão estará sobre a cerviz de teus inimigos;
os filhos de teu pai se inclinarão a ti.
Judá é leãozinho;
da presa subiste, filho meu.
Encurva-se e deita-se como leão
e como leoa; quem o despertará?
O cetro não se arredará de Judá,
nem o bastão de entre seus pés,
até que venha Siló;
e a ele obedecerão os povos.
Ele amarrará o seu jumentinho à vide
e o filho da sua jumenta, à videira mais excelente;
lavará as suas vestes no vinho
e a sua capa, em sangue de uvas.
Os seus olhos serão cintilantes de vinho,
e os dentes, brancos de leite. (Gn 49.8-12)
Judá recebeu a primazia. Como Voddie Baucham bem nota, essa escolha é fruto da ação divina em sua vida. Afinal, Judá nunca foi o favorito de Jacó.[4] Judá é o leão. Ele é quem teria liderança e, diante dele, seus irmãos se inclinariam. A mão sobre a cerviz dos inimigos. Judá mereceu isso? Claro que não. Foi tudo pela graça soberana e eletiva de Deus. Curiosamente, é um filho de Lia, e não da amada Raquel, que recebe esse privilégio: “Jacó, apesar dos olhos fracos, agora enxerga melhor que nunca”.[5]
O que significa dizer que ele estaria sobre os irmãos? Veja que o texto fala sobre o cetro que não se arredaria de Judá. Isso simboliza o domínio real sobre as outras tribos. Embora, pela escolha tola do povo, o primeiro rei da nação israelita tenha vindo de Benjamim, no plano divino seria Davi, filho de Judá, o grande rei segundo o coração de Deus.
Se Saul era um lobo benjamita, ele teria de, em tempo hábil, ceder lugar ao leão judaico de coração segundo o de Deus.
Judá prevaleceria sobre os seus inimigos também. Pense na imagem de um leão caçando sua presa e pegando búfalos, gazelas ou seja lá o que for pelo pescoço e trazendo ao chão para derrotar.[6] Isso aponta para o reinado de Davi, Salomão e tantos outros que dominaram sobre inúmeros inimigos enquanto eram fiéis ao Senhor. A profecia de Jacó diz que o cetro não se apartaria de Judá até a vinda de Siló, a quem obedeceriam as nações. Embora o hebraico seja bastante difícil e as traduções, bem variadas,[7] é praticamente unânime o entendimento de se tratar de um texto que indica que o Messias, o descendente prometido lá no começo do livro, viria pela linhagem de Judá.
A ideia é que o reinado chega a um ponto em que o leão de Judá derrota seus inimigos — e nele nós descansamos e a ele as nações obedecem.
Com o poder de Deus, o leão poderia tudo.
Por mais impressionantes que tenham sido os feitos de Davi e de outros, isso não é nada em comparação ao grande leão que viria.
Sim, outro leão viria. Um que seria Filho de Davi e, ao mesmo tempo, Senhor de Davi. Um leão-cordeiro que agiria plenamente de acordo com a vontade de Deus. Um a quem todo o Israel espiritual se dobraria com o coração ardente. Um que conquistaria todos os seus inimigos, inclusive o diabo e a própria morte.
Esse triunfo final do leão vai acontecer. Podemos discordar sobre se será após um período de grande bonança generalizada, ou se depois de um período de tormenta generalizada. Ou ainda se depois de um longo tempo, em que tormenta e bonança se alternam, aqui e ali.[8]
Mas não tenha dúvida: esse leão reina.
E quem o despertará? Quem terá coragem de acordá-lo e ver sua ira inflamada? Os que zombam dele temerão como ninguém nunca temeu nada antes.
O povo de Deus será redimido pelo descendente de Judá.
E, como vemos em Apocalipse 5, o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu. Ele venceu. Tal reinado será de grande abundância, como nunca se viu antes. Gênesis 50.11 aponta para um tempo que será de tamanha riqueza que ninguém vai se preocupar em estacionar seu jumentinho longe das videiras. Mas o jumentinho vai devorar as uvas! Tudo bem! A abundância do reinado do Cordeiro será tal que o jumentinho poderá ficar junto da vide mais excelente. Não haverá problema se ele comer. Não vai faltar.
E o vinho será tão abundante que vai dar para lavar roupa com ele, com sangue de uva. Não será um artigo de luxo, mas correrá livremente na festa do reinado do Cordeiro. E o pessoal lá de Caná da Galileia sentiu o gostinho disso, quando Jesus pegou água de lavar e fez virar o mais fino dos vinhos.[9]
E isso começou a se cumprir quando nasceu em Belém um descendente de Judá. Um leãozinho descendente de Davi, descendente de Judá, descendente de Jacó, descendente de Isaque, descendente de Abraão. O grande mediador do pacto.
E, naquele estábulo, onde estavam bois e vacas, ficou um leão adormecido, que se preparava para viver e morrer pelo seu povo. Como bem disse C. S. Lewis: “No nosso mundo também já aconteceu uma vez que, dentro de um certo estábulo, havia uma coisa que era muito maior que o nosso mundo inteiro”.[10]
O filho de Judá veio para encher céus e terra — bendito Leão!

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Jacó e a graça transformadora, de Emilio Garofalo Neto, em breve pela Editora Fiel.
[1] Você tinha percebido?
[2] Aqui trago um pequeno resumo dos eventos de Gênesis 38. Em meu livro Vale da sombra da morte, lido com a história de forma mais pormenorizada.
[3] Se por clemência ou por mero desejo ganancioso, isso eu não sei, mas Deus o sabe.
[4] Baucham, José e o evangelho, p. 168.
[5] Baucham, José e o evangelho, p. 168.
[6] Sim, eu sei que, em geral, é a leoa que caça. Aguente firme aí.
[7] A Almeida 21, por exemplo, diz: “O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão de autoridade, de entre seus pés, até que venha aquele a quem pertence; e os povos obedecerão a ele”.
[8] Essa é a opção certa, a propósito. Claro, nem todos concordam.
[9] Veja discussão em Hughes, Genesis, p. 613.
[10] Em A última batalha.
