Este artigo faz parte da série Gênero e Características literárias dos livros da Bíblia, que são artigos retirados e adaptados com permissão da Bíblia de Estudo da Fé Reformada, Editora Fiel.
O conhecimento do gênero literário de um livro bíblico visa conduzir o leitor ao melhor entendimento das Escrituras, já que a Palavra de Deus é inspirada e que o próprio Deus planejou a escrita de cada gênero para um determinado fim. Esperamos que o conhecer o gênero e a estrutura literária de cada livro ofereça ao leitor uma leitura e estudo bíblico mais profundo e proveitoso.
Gênero
Acaso essa é uma narrativa histórica, habilidosamente escrita para salientar certas verdades? Ou se trata de ficção, com a intenção de comunicar as mesmas verdades? A maior parte dos estudiosos modernos defende a última opção, ainda que o livro não contenha intervenção obviamente sobrenatural, como, por exemplo, milagres, o que é usado com tanta frequência para designar a obra como fantasiosa.
Há, no entanto, aspectos significativos que apontam para a exatidão histórica da narrativa. Por exemplo, o banquete no terceiro ano de Assuero (Xerxes, 1.3) corresponde ao grande concílio em 483 a.C., com o plano para a invasão grega, tal como relatado pelo historiador grego Heródoto. A lacuna de quatro anos entre o banquete de 1.3 e o sétimo ano do reinado de Assuero, quando Ester foi trazida à presença real (2.16), corresponde ao período no qual Assuero teve de enfrentar os gregos (ver 2.1 e nota). O autor revela ainda um conhecimento impressionante do traçado de Susã, especialmente do palácio. Muitos termos persas para objetos e nomes persas se encontram no livro, e quase todos também são atestados pelos antigos textos persas.
Dificuldades sobre questões como o número de províncias no Império Persa (1.1) e a falta de atestação externa para a existência de Vasti (1.9), Ester e Mordecai (2.5) não são tão significativas ou insuperáveis quanto parecem a alguns estudiosos.
Características literárias
O livro de Ester é famoso pela elevada qualidade de sua arte literária, a qual funciona como o principal veículo para seu significado religioso. O autor usa habilidosamente a narrativa de tensões criadas pelas reversões ou os contrastes agudos de aventuras e expectativas, bem como pelos papéis, que, com frequência, são elevada e naturalmente irônicos. Notem-se as duas descrições de banquetes oferecidos por Assuero e sua esposa — aquele descrito com muitos detalhes e este apresentado sobriamente (1.1-9); o notável contraste entre o perfil inicial do rei, como poderoso e luxuoso (1.1-8), e a revelação subsequente de sua incompetência e fraqueza; o contraste efetivo entre a resposta do rei quando Vasti deixa de comparecer diante dele e quando Ester surge sem ser anunciada (1.11-21; 5.1-3); a irônica reversão da carreira de Hamã (6.4-12); a cena patética na qual Hamã suplica a misericórdia de Ester, simplesmente para ser acusado de tentativa de violação (7.7-9); e a justiça poética de pendurar Hamã em seu próprio patíbulo.
O último é um exemplo das irônicas reversões nos destinos e na posição de Hamã e Mordecai (7.9, 10; 8.1, 2; 9.25). Tais reversões, quando comparadas às do êxodo, ao exílio babilônico e até mesmo à crucificação e à ressurreição, revelam sutilmente a mão de Deus na história da salvação de seu povo.
O escritor usa ainda repetição e duplicação para combinar as várias partes da história. Por exemplo, note as três referências aos registros oficiais (“crônicas”) posicionadas em pontos convergentes e significativos da narrativa (2.23; 6.1; 10.2). Há três conjuntos de banquetes que marcam o começo, o meio e o fim do livro: os banquetes de Assuero (1.3, 4, 5-8), de Ester (5.4-8; 7.1-10) e as duas celebrações de Purim (9.18-32). Veja ainda o tema do banquete em 1.9; 2.18; 3.15; 8.17; 9.17; a tríplice menção à extensão do império de Assuero (1.1; 8.9; 9.30); a promessa repetitiva feita a Ester — “ainda que seja a metade do meu reino” (5.3, 6; 7.2; ver 9.12); a reiterada insistência de que os hebreus não despojaram seus inimigos (9.10, 15, 16); os dois relatos da identidade oculta de Ester (2.10, 20); o duplo ajuntamento de virgens (2.8, 19); os dois intercâmbios de Hamã com sua esposa e seus amigos (5.10-14; 6.13, 14); as duas coberturas da cabeça de Hamã (6.12; 7.8); as duas referências ao transbordamento da ira de Assuero (2.1; 7.10); e os lembretes de que as leis dos medos e dos persas não podem ser alteradas (1.19; 8.8). O uso do número sete é digno de nota (1.5, 10, 14), como se repete no pedido de Ester e no recebimento do favor (2.9, 15, 17; 5.2, 8; 8.9).
No livro, também se emprega a técnica literária da antecipação. Mais notável é a predição da esposa de Hamã de que “já começaste a cair”, porque Mordecai era judeu (6.13). O autor é um mestre do suspense e também dá passos rápidos no avanço da narrativa. As constantes referências ao tempo não só apresentam os eventos como história (1.1, 2), sublinhando o tema da ação providencial de Deus na história, como também mantêm a história em movimento (p. ex., 2.1, 15, 19, 21; 3.1).
O escritor de Ester constrói criativamente sobre os aspectos simbólicos ou típicos dos nomes dos dois principais personagens para mostrar como o antagonismo pessoal entre Hamã, o arqui-inimigo dos judeus, e Mordecai, o judeu fiel, era parte do conflito histórico entre Israel e os amalequitas. Esse conflito fornece o fundamento para a trama contra todos os judeus (2.5 e nota; 3.1 e nota). Semelhanças na fraseologia, no cenário, na linha da história e na ênfase também pressupõem que a história de José foi um importante modelo para o escritor de Ester (observe as semelhanças entre 2.2-4 e Gn 41.34-37; 3.10; Gn 41.42; 8.6; e Gn 44.34).
Edição por Renata Gandolfo.

Este artigo foi retirado e adaptado com permissão do material de estudo da Bíblia de Estudo da Fé Reformada, Editora Fiel e Ligonier.
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