O texto abaixo foi extraído com permissão do livro Fracasso pastoral, de Charles Bridges, Editora Fiel
A origem divina do ministério cristão já abriu a visão de sua dignidade muito acima de qualquer honra ou elevação terrena, de modo que o infiel escárnio jamais poderá degradá-lo. Tal instituição, introduzida no mundo e confirmada à igreja com tão solene preparação, familiarizada com os interesses e encarregada do cuidado das almas imortais, ordenada como o principal instrumento para a renovação do mundo e a edificação da Igreja, não pode ser de eminência inferior. O ofício de “cooperadores de Deus”¹ seria uma grande honra até mesmo se fosse conferida ao arcanjo mais próximo do trono eterno. Tal ofício formou a vocação, a obra e o deleite do Senhor da glória durante seus últimos anos de residência na terra; e foi estabelecido por ele mesmo como a ordenação permanente em sua Igreja e o meio de revelação de sua vontade até o fim dos tempos. Conforme observou o ponderado Calvino, “Cristo não chama seus ministros para o ofício docente a fim de que, conquistando a Igreja, reivindiquem domínio sobre ela, mas para que ele faça uso de seus labores fiéis associando-os consigo. A designação de homens sobre a Igreja é uma distinção grande e sublime, para que representem a pessoa do Filho de Deus”². A dignidade, porém, do sagrado ofício pertence a um reino que “não é deste mundo”³. Distingue-se, portanto, não pelo brilho passageiro da vaidade deste mundo, mas pelos resultados eternos, que produzem, até mesmo em sua influência presente, a felicidade mais sólida e duradoura.4 Pois, certamente, é “a mais alta dignidade, se não a maior felicidade, que a natureza humana consegue atingir aqui neste vale abaixo, o ter a alma tão iluminada a ponto de se tornar o espelho ou o veículo ou o condutor da verdade de Deus para os outros” 5. Uma compreensão criteriosa dessa alta vocação, longe de fomentar um espírito vanglorioso, tem a tendência direta de aprofundar a auto-humilhação e a reverência. Pois podemos nós evitar recuar diante de cargo tão elevado, de lidar com coisas tão elevadas e sagradas? Como podemos nós — que por nós mesmos estamos mortos — transmitir a vida? Como podemos nós, tão contaminados, administrar um serviço tão puro e tão purificador? “Ai de mim,” disse um dos antigos profetas, ao contrastar essa honra com sua mesquinhez pessoal, “estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros.”6 Como podemos pensar nessa ampla vocação, esse importante cargo de confiança, exceto como ato de favor imerecido?7
Mas permita que a lembrança dessa sagrada dignidade dê um tom mais profundo de decisão às nossas ministrações. “Um pastor”, observa o bispo Wilson, “deve agir com a dignidade de um homem que age pela autoridade de Deus”8, lembrando que, enquanto falamos aos homens, falamos em nome de Deus. E esse é o verdadeiro padrão bíblico de nosso trabalho. “Visto que fomos aprovados por Deus”, disse o grande Apóstolo, “a ponto de nos confiar ele o evangelho” — a maior confiança que jamais poderia ser depositada no homem —, “assim falamos, não para que agrademos a homens, e sim a Deus, que prova o nosso coração.”9 Permita que tal compreensão se conecte com suas obrigações mais responsáveis — que não desonremos a dignidade e que vivamos sob a restrição de nossa honrada vocação.
Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.10
São essas as exortações impressionantes do grande mestre.11 “Não te faças negligente”, disse o grande Apóstolo, “para com o dom que há em ti”12, mas, antes, desperta-o por meio dos exercícios diários de fé, abnegação e oração. Quesnel observa:
Que coragem, que ousadia, que liberdade a dignidade do ministério deve dar a um bispo ou sacerdote; não para seus próprios interesses, mas para os interesses e para o bem da igreja; não por orgulho, mas por fidelidade; não através do emprego de meios carnais, mas através do uso da armadura de Deus.13
“No momento em que nos permitimos pensar levianamente sobre o ministério cristão, nosso braço direito é enfraquecido; nada além de imbecilidade e negligência permanece.”14 Entretanto, permita também que o peso dessa dignidade seja aliviado pelo encorajamento do evangelho. A ministração do Espírito e da justiça constitui a principal glória da economia evangélica. “Pelo que”, diz o Apóstolo (após uma exibição de sua excelência preeminente), “tendo este ministério”, tão ricamente dotado, tão livremente concedido, “segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos.”15
Um senso da dignidade de nosso ofício — formado com precisão, cuidadosamente mantido e habitualmente exercido — é, Um senso da dignidade de nosso ofício — formado com precisão, cuidadosamente mantido e habitualmente exercido — é, portanto, da mais alta importância. Ele eleva o padrão de consistência cristã, mesmo no estágio inicial de consideração prospectiva e reflexão sobre a adequabilidade para o ofício. Pois o que é inadequado ao caráter ministerial é obviamente inadequado para o aspirante16 ao ministério. Além disso, no real cumprimento do dever, a mente também será assim estimulada a uma consagração mais sólida e devotada; e todo o homem será gradualmente formado nesse molde celestial — exaltado, não enaltecido. A dignidade do caráter corresponderá, portanto, com a dignidade da posição. O “ofício” será “glorificado”17 em perfeita harmonia com a mais sincera humildade pessoal — na verdade, nunca mais eminentemente demonstrado do que nos exercícios de humildade genuína: o homem investido dessas altas responsabilidades afunda no pó como um “servo inútil”18.
¹1 Coríntios 3.9; 2 Coríntios 6.1. Essa associação se refere evidentemente à de um ministro com Deus, e não, como se pode pensar (como Doddridge e Macknight supuseram), de um ministro com outro. Compare Romanos 16.3,9,21 com Filipenses 2.25, 4.3 e Filemom 1.24. “Ora, tudo provém de Deus” (2Co 5.18). Pois essa cooperação é Deus a operar em nós “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). A força para o trabalho nos é concedida, é algo que não nos é natural; não há qualquer “cooperador” nos primeiros princípios de força ou mesmo em seu aumento subsequente. “Eximium elogium Ministerii, quod, cum per se agere possit Deus, nos homunciones tanquam adjuteres adsciscat, et tanquam organis utatur”. João Calvino, comentando sobre 1 Coríntios 3.9, diz: “Aqui temos um admirável enaltecimento do ministério, ou seja, que quando Deus realiza a obra inteiramente movido por si mesmo, ele nos chama, insignificantes mortais que somos, para sermos seus coadjuvantes e nos usa como instrumentos” (João Calvino, 1 Coríntios, trad. Valter Graciano Martins (São José dos Campos: Editora Fiel, 2015, p. 126-27).
²João Calvino, O evangelho segundo João, trad. Valter Graciano Martins (São José dos Campos: Editora Fiel, 2015, p. 143.
³João 18.36.
4Burnet ilustra brilhantemente as designações honrosas do sagrado ofício em Gilbert Burnet, Discourse of the Pastoral Care (Londres: Wentworth Press, 2019), capítulo 1. Compare também, São João Crisóstomo, De sacerdotio [edição em português: Sobre o sacerdócio (Campinas: Ecclesiae, 2020)], livro III. Veja também a oração de Gregório de Nazianzo, geralmente anexada a Crisóstomo, e Oliver Bowles, De pastore evangelico tractatus, in quo universum munus pastorale, tam quoad pastoris vocationem et praeparationem, quam ipsius muneris exercitium, accurate proponitur (Genebra: Joannis Hermanni Widerhold, 1667; Londres: Sa. Gellibrand, 1659). Um antigo escritor discorre sobre nada menos que quarenta e três denominações bíblicas de sua dignidade e utilidade. Sal Terrae, capítulo 2, por T. Hall. 12mo. Francof. 1658. Outro escritor conta aproximadamente sessenta nomes aplicáveis à “diversidade de operações” no ministério. J. J. Hottingeri, S. 7eologiæ Doctoris Et Professoris In Universitate Heidelbergensi Typus Pastoris Evangelici: Aphoristice sistens Nomina, Naturam, Affectiones, Functiones, Vocationem, Requisita C Motiva Ministerii Evangelici, Subjecto, Speciminis Loco, Capite De Legitima Vocatione Pastoris Evangelici Exposito in Usum Institutionis domesticæ (Im Hof, Johann Rudolf: 1741) [N.T.: Disponível em: https://digitale.bibliothek.unihalle.de/ vd18/content/titleinfo/15710956, acesso em 13 jul. 2022]. A observação de um dos reformadores traz consigo uma lição valiosa: “Quanto ao nome, deve-se observar que é chamado de ministério, e não de magistério.” — Martin Bucer, De vi et usu sacri ministerii.
5Dr. Cotton Mather, Student and Preacher. Intituled, Manuductio ad Ministerium, or Directions for a Candidate of the Ministry (Londres: Printed for Charles Dilly, 1781).
6Isaías 6.5.
7Veja Efésios 3.8, 1 Timóteo 2.12.
8Thomas Wilson, Sacra Privata: The Private Meditations and Prayers of the Right Rev. Tomas Wilson, D. D., Lord Bishop of Sodor and Man (Londres: Forgotten Books, 2018). Veja também 2 Coríntios 5.20.
91 Tessalonicenses 2.4.
10Mateus 5.13-16.
11Veja um apelo despertador na conclusão do primeiro sermão do bispo Taylor sobre o dever do ministro na vida e na doutrina. Works, volume 6.
121 Timóteo 4.14 e 2 Timóteo 1.6.
13Pasquier Quesnel, em Comentário sobre 2 Coríntios 3.8. Compare com Davenant sobre Colossenses 1.1.
14 Robert Hall, On the discouragements and supports of the Christian Minister, a discourse (Londres: Sagwan Press, 2015), p. 51.
15 2 Coríntios 4.1. Ou “não desanimamos”.
16 Um ministro em treinamento que está passando por um período de teste ou estágio.
17Romanos 11.13.
18As opiniões de Philip Henry eram verdadeiramente dignas de seu alto cargo. Assim, ele escreveu no dia de sua ordenação: “Recebi hoje tanta honra e trabalho que jamais ficarei sem o que fazer pelo resto de minha existência. Senhor Jesus, peço que forneças os suprimentos necessários!” Dois textos das Escrituras que ele desejou poderem estar escritas em seu coração: 2 Coríntios 6.4-5 e 2 Crônicas 29.11. E tão influentes foram essas opiniões em manter um curso de humildade profunda “que ele se expôs com tanta diligência e vigor”, em uma esfera muito contraída, “como se supervisionasse a maior e mais considerável paróquia no país”. P. Henry’s Life (Williams’s Edition) p. 38; que o Dr. Chalmers justamente caracterizou como “uma das biografias religiosas mais preciosas da nossa língua”. Oh! Que o Senhor conceda em grande número tais ministros, em todos os departamentos da igreja de Deus!
Ministério Fiel Apoiando a Igreja de Deus
