Este artigo explora a ira santa de Jesus nos Evangelhos, mostrando como seu zelo, compaixão e indignação revelam a perfeição de seu caráter. A partir de textos como João 2, Marcos 3 e João 11, o autor analisa a relação entre amor, justiça, tristeza e ira piedosa. Uma reflexão bíblica profunda sobre emoções, santidade e discipulado cristão. Escrito por David Mathis, editor executivo do Desiring God e pastor da Cities Church, tendo escrito mais de 750 artigos e até o momento 6 livros publicados sobre assuntos da vida cristã.
Você já foi pego de surpresa pela ira de Jesus?
Ali está você, meditando em paz nos Evangelhos ou se sentindo fortalecido pela pregação de seu pregador favorito. Com grande conforto, você descobre que Cristo é o Senhor de todas as situações. Ele usa imagens concretas, faz perguntas perspicazes e parece imperturbável diante de oponentes ardilosos.
Então, num lampejo surpreendente de sua santa ira, ele desembainha um chicote e esvazia o pátio do templo. Suspira alto, frustrado. Há relatos de que ele fica irritado, até mesmo indignado. Ele repreende severamente homens e mulheres que acaba de curar. E você se lembra de quantas vezes ele repreende, não apenas demônios e febres, ventos e ondas, mas também seus próprios discípulos.
Doce (e soberana) emoção
Podemos evitar a palavra inglesa “rage” (ira), mas há apenas um século, o eminente B.B. Warfield (1851-1921) a considerou um termo apropriado em seu estudo sobre A Vida Emocional de Nosso Senhor. Talvez as conotações da palavra tenham mudado o suficiente hoje em dia para que busquemos outras palavras, mas talvez nos fizesse bem ver o que muitos olhos fiéis ousaram ver na vida de Cristo. E se alguém pudesse se enfurecer com uma ira santa e que honra a Deus, não seria Jesus?
Apesar de ser imaculado, Jesus teve seus momentos de evidente emoção enquanto viveu entre nós. Sem dúvida, era um homem de compostura e autocontrole, mas seria estranho presumir que ele era impassível quando purificou o templo com açoites. Ou quando chorou no túmulo de Lázaro. Ou quando orou, em angústia, com gritos e lágrimas. Tipicamente, o Cristo que encontramos nos Evangelhos é um homem de impressionante serenidade — um modelo do tipo de equilíbrio e equanimidade, diante do caos do mundo, que seu povo deseja cultivar pelo poder do seu Espírito. E podemos aprender também com sua santa ira. Até mesmo com sua fúria.
Tardio em irar-se
Os filhos de Israel haviam celebrado seu Deus fiel à aliança como “tardio em irar-se” (a partir de Êxodo 34.6). Tardio em irar-se, que fique registrado, não significa sem ira. Deus estava claramente pronto para punir os culpados no tempo certo. Contudo, diante da rebeldia do seu povo, que muitas vezes era ultrajante, ele foi notavelmente paciente e notavelmente “tardio em irar-se”, como profetas e salmistas tanto prezavam (Neemias 9.17; Joel 2.13; Salmos 86.15; 103.8; 145.8).
Assim também Jesus, nos dias de sua vida terrena, era tardio em irar-se. Sabia manter a calma sob pressão, quando o momento o exigia, e sabia dar vazão às suas emoções, com autocontrole, no momento e lugar apropriados. Tipicamente, o Cristo dos Evangelhos é notavelmente calmo, sem se deixar provocar diante de inimigos exaltados. Contudo, o Filho divino entrou num mundo de pecado e pecadores, sob a maldição — um mundo em que as injustiças abundam. E não seria virtude, mas vício, como observa Warfield, “para um ser moral permanecer indiferente e impassível diante do que percebe como errado” (50).
Para não criarmos uma impressão errada, vamos recorrer a duas vozes reformadas por excelência. Se você pensava que a valorização da mente pela teologia reformada implicava a diminuição da emoção, deixe que Warfield, juntamente com o próprio João Calvino (1509-1564), esclareça a questão. É claro que alguns podem ter adotado uma postura antiemocional em nome da teologia reformada. Mas eles estão enganados. Dificilmente encontraremos vozes mais razoavelmente reformadas do que as de Calvino e Warfield.
Para isso, vamos analisar alguns textos importantes dos Evangelhos que revelam a ira de Jesus e considerar quais lições podemos extrair como discípulos de Cristo hoje.
1. Jesus experimentou a nossa ira.
Jesus, verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, era capaz de sentir ira humana, e isso era (e é) uma característica, não um defeito. Essa emoção humana é um análogo da ira divina no portador da imagem de Deus. Como tal, é algo bom, um dom divino, para nos ajudar em um mundo onde encontramos pecado, morte e injustiça. Sim, o pecado inerente corrompe nossa ira, e a ira é especialmente perigosa por ser uma emoção tão poderosa, por desígnio de Deus. Mas a ira em si não é o problema. O problema é o nosso pecado.
No Evangelho de João, a primeira manifestação de ira surge já no capítulo 2. Jesus está visivelmente irado com aqueles que transformaram a casa de seu Pai em uma casa de comércio, visando o lucro material em vez da oração a Deus. Contudo, o atributo celebrado aqui não é chamado de ira, mas de zelo. Seus discípulos lembram-se do que está escrito (no Salmo 69): “ O zelo pela tua casa me consumirá” (João 2.17).
A ira surge naturalmente, ainda que lentamente, em almas saudáveis. Não precisamos cultivar a ira. Ela surge como consequência de um amor maior. O que queremos cultivar é o zelo por Deus e sua honra, e pelos outros e sua alegria em Deus. Os cristãos desejam transbordar de santa afeição por Jesus Cristo (Romanos 12.11). E à medida que a Palavra de Deus, seu povo e a oração alimentam e moldam nosso zelo, nossa ira se manifestará menos em momentos inoportunos e mais em momentos oportunos.
Normalmente não usamos a palavra ira para essa emoção mais construtiva que chamamos de zelo. Zelo é a chama ardente do amor de Jesus por seu Pai e, portanto, por sua casa. Ira é o termo que usamos para a resposta zelosa contra aqueles que tratam seu Pai e sua casa com desprezo.
2. A ira de Jesus era sem pecado.
A vida de Cristo nos mostra a possibilidade de uma ira santa, justa e boa, mesmo após a queda. Jesus sentiu uma ira que era uma resposta apropriada ao pecado, ao mal e à injustiça que encontrou. Ele também sentiu ira em níveis apropriados de intensidade — nem pouca, nem muita, nem com muita frequência ou rapidez, nem muito lentamente ou raramente.
Mesmo ao observarmos nossa notável solidariedade com o Filho de Deus em sua participação em nossa humanidade, devemos ter em mente aquela importante ressalva: “contudo, sem pecado” (Hebreus 4.15). Como seria experimentar a emoção da ira, dada por Deus, mas sem a corrupção do pecado?
Calvino nos adverte contra qualquer tentativa ingênua de imitar a ira de Jesus sem reconhecermos nossa própria fraqueza: “Se compararmos as paixões dele com as nossas, elas diferirão tanto quanto a água pura e cristalina, fluindo em um curso suave, difere da espuma suja e turva”. Nossa ira não é pura e cristalina como a dele. Se eu nunca pratiquei uma boa ação que não tenha sido maculada de alguma forma, certamente o mesmo se aplica à minha ira. Contudo, isso não deve me impedir de praticar boas ações ou de dar ouvidos à emoção da ira, designada por Deus, por mais suscetível que essa força seja à influência do pecado inerente. Todo pensamento, todo sentimento, todo ato de seres humanos pecadores nesta era está, de alguma forma, contaminado pelo pecado, mas isso não nos impede de praticar boas obras genuínas, cultivar bons pensamentos e sentir emoções boas e úteis.
A ira pura e clara de Jesus é um chamado para cultivarmos um zelo semelhante ao de Cristo. Suas emoções nos encorajam e até mesmo nos impulsionam. Como acrescenta Calvino, a vida de Jesus “deveria ser suficiente por si só para deixar de lado a rigidez inflexível exigida pelos estóicos”.
3. Jesus deu vazão à sua ira; depois, a deixou de lado.
Jesus não reprimiu sua ira e, em diversas ocasiões nos Evangelhos, permitiu que ela se tornasse evidente. Ele estava visivelmente irado. E usou essa ira: aproveitou-se de sua motivação e energia para agir em busca de justiça.
Mas, observem bem, Jesus não se deixou abater por isso. O momento crucial está em Marcos 3.1-5. Num sábado, ele encontra um homem com a mão atrofiada. Os fariseus observam, prontos para acusá-lo de violar o sábado. Jesus lhes pergunta: “É lícito no sábado fazer o bem ou o mal, salvar a vida ou matar?” Ele está certo, e eles não admitem. Permanecem em silêncio, com um silêncio maligno e covarde. Então, o versículo 5:
Olhando-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a mão. Estendeu-a, e a mão lhe foi restaurada.
Marcos nos conta que Jesus está irado e os olha com ira. E, como veremos novamente em João 11, essa santa ira coexiste com a tristeza. A dureza de coração deles o entristece e o enfurece. Mas a sua ira, que surge lentamente, age rapidamente. Ela relampeja, e ele a percebe, é inspirado a agir de forma justa e, então, a deixa de lado em santidade. Foi breve e, não reprimida nem esquecida, impulsionou sua próxima ação (sem ira): curar. (Encontramos exemplos semelhantes de breve ira ou frustração que levam a uma resposta adequada também em Marcos 7.34; 8.12; 10.14.)
Assim como Paulo exortaria os efésios, ele ouvira da vida de Jesus: “Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Efésios 4.26). Percebam o impacto poderoso, mas não permitam que ele os leve ao pecado, e sim que inspire a justiça. O que nos leva à quarta e última lição.
4. Jesus chorou e se enfureceu.
João 11 é famoso pela passagem “Jesus chorou”, e com razão. Mas a revelação mais surpreendente ali é a sua ira. E não é uma ira sutil. Tradutores que se sentiram desconfortáveis tentaram amenizar o impacto, mas João é ainda mais claro sobre a ira de Jesus do que sobre suas tristezas. Lágrimas, poderíamos esperar; ira, não.
Em João 11.33, encontramos uma alma santa em santa ira. Jesus não se revolta. Ele não ataca ninguém nem diz nada de que se arrependerá depois. As lágrimas fluem junto com sua ira e, assim, oferecem uma revelação sobre a dor e a ira (como vislumbramos em Marcos 3.5): a ira piedosa vem acompanhada de lágrimas, e as lágrimas podem fluir com a ira.
Don Carson enfatiza a ira de Jesus, juntamente com sua tristeza, em João 11. A palavra traduzida como “profundamente comovido” nos versículos 33 e 38 (em grego, embrimaomai) “invariavelmente sugere ira, ultraje ou indignação emocional” (João 1.415). E ele insiste,
O mesmo pecado e morte, a mesma incredulidade, que provocaram a indignação [de Jesus], também geraram a sua tristeza. Os que seguem Jesus como seus discípulos hoje fariam bem em aprender essa mesma tensão — que a tristeza e a compaixão sem indignação reduzem-se a mero sentimentalismo, enquanto a indignação sem tristeza se transforma em arrogância e irascibilidade presunçosas. (416)
Esta é uma lição dupla para nós, seres humanos maravilhosamente emotivos e tragicamente pecadores. Não seremos íntegros se não sentirmos ira — e também não seremos íntegros se sentirmos apenas ira. Alguns precisam cultivar o amor ao próximo (e a Deus) que leva à tristeza santa; outros precisam cultivar o zelo por Deus (e pelo homem) que leva à ira santa. Como Warfield expressa,
Aquele que ama os homens deve odiar com um ódio ardente tudo o que faz mal aos seres humanos…. Jesus nunca vacilou em seu ressentimento constante contra a injustiça específica que ele foi chamado a testemunhar. (75)
Assim, tendo Cristo como nosso único mediador e modelo perfeito, buscamos ver nosso espírito cada vez mais sob o controle do Seu Espírito.
Veja o lampejo do Seu amor
Jesus, de fato, conhece a experiência da ira humana. E nós ainda não conhecemos a experiência da ausência de pecado. Ao observarmos sua justa ira e aprendermos sobre as características da nossa própria humanidade ao olharmos para ele, procedemos com cautela, reconhecendo o poder singular da ira e nos reconhecendo como pecadores em todas as nossas faculdades.
E, quer você chame isso de fúria ou não, veja que a raiz é o amor. A justa ira de Cristo é uma manifestação de seu santo zelo — por seu Pai, sua Palavra, sua santidade e seu povo. Para aqueles que estão seguros em Cristo, esses lampejos de sua santa ira são repletos de maravilhas do Evangelho. Ele é justo e se indigna com justiça contra seus inimigos por causa de seu grande amor por seu Pai e seus amigos.
Por: David Mathis . © Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: Jesus Raged? The Righteous Anger of God Incarnate | Revisão e edição por Vinicius Lima.
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