Neste trecho adaptado de Servo arbítrio: a escravidão da vontade, Martinho Lutero responde às objeções de Erasmo sobre a relação entre a soberania de Deus, a graça e a responsabilidade humana. Ao examinar textos como Mateus 5, João 1 e Romanos 2, Lutero argumenta que as promessas, recompensas e advertências das Escrituras não exaltam o livre-arbítrio, mas revelam a necessidade absoluta da graça divina. O reformador demonstra que o Reino de Deus é recebido como herança dos filhos de Deus, e não conquistado por mérito humano. Este texto permanece relevante por ajudar os cristãos a compreenderem como a soberania de Deus sustenta, e não elimina, a responsabilidade humana.
O “galardão”, referido em Mateus 5.12, é uma espécie de promessa. Uma promessa, entretanto, não prova que podemos fazer coisa alguma. Prova apenas que, se fizermos certas coisas, seremos galardoados. A questão é se realmente podemos fazer as coisas em razão das quais o galardão é dado. Alguns dizem: O prêmio é posto perante todos os que correm, assim sendo, todos podem correr e obter o prêmio! Não é essa uma lógica ridícula? Poderia ser útil para alguns, se a noção do “livre-arbítrio” pudesse ser estabelecida por meio de tais argumentos!
Você procura argumentar que se Deus já decidiu tudo de antemão, então não podemos falar em galardão. Se quer dizer com isso que você não recompensaria quem trabalha com má vontade, eu estou de acordo. Porém, quando as pessoas praticam o bem ou o mal propositadamente, então, com toda a justiça, recebem o galardão ou a punição. Isso é verdade, mesmo quando as pessoas são incapazes de alterar a sua vontade por seus próprios esforços. Se, porém, só podemos desejar fazer o que é bom capacitados pela graça divina, daí é óbvio que o mérito e o galardão provêm exclusivamente da graça divina.
Entretanto, não deveríamos falar sobre méritos humanos. Melhor é falar acerca das consequências daquilo que fazemos. Nada existe de bom ou de mal que não venha a receber sua devida retribuição. O inferno e o julgamento divino, certa e seguramente, esperam pelos ímpios. Da mesma forma, é certo que um Reino de Deus espera pelos piedosos, porque o mesmo foi-lhes preparado por seu Pai celestial (Mt 25.34). Se tentarmos fazer o bem a fim de merecermos herdar o Reino de Deus, haveremos de fracassar, mostrando assim que somos ímpios. Os filhos de Deus fazem o bem visando a glória de Deus, e não alguma recompensa.
Por conseguinte, qual é o significado daquelas passagens bíblicas que prometem o Reino de Deus ou ameaçam com o inferno? (Gn 15.1; 2 Cr 15.7; Jó 34.11; Rm 2.7). Elas simplesmente mostram o resultado de uma vida boa ou de uma vida má. Seu propósito é instruir e alertar. Nada dizem a respeito de mérito, mas ensinam aquilo que devemos fazer, encorajando-nos a prosseguir até ao fim (Gn 15.1; 1Co 15.58; 16.13). É como se quiséssemos consolar alguém, dizendo que o que ele está fazendo agrada a Deus, ou como se quiséssemos advertir a alguém, dizendo que o que ele está fazendo desagrada a Deus.
Mesmo assim, você argumenta: “Por que Deus importa-se em dizer-nos essas coisas, quando todas elas já foram determinadas de antemão?” A resposta é que Deus produz em nós o seu propósito por intermédio da sua Palavra. O Senhor poderia fazer essas coisas sem a sua Palavra; todavia, agradou-lhe fazer de nós seus cooperadores. Portanto, ele nos diz essas coisas em sua Palavra, a fim de envolver-nos em seu plano. Por conseguinte, vemos que Deus realiza em nós a sua vontade, e também nos apresenta a sua Palavra, com o intuito de dizer ao mundo inteiro quais os fatos a respeito dos galardões e das punições, a fim de que o seu poder e a sua glória, bem como a nossa debilidade e impiedade, sejam proclamadas por todo o mundo. E essas verdades, que tantos desprezam, serão recebidas pelos corações dos piedosos.
A soberania de Deus não anula a nossa responsabilidade
Erasmo, você alicerça seu argumento nas palavras de Mateus 7.16, que dizem: “Pelos seus frutos os conhecereis…”, asseverando que a Bíblia diz que o fruto é nosso, e que, portanto, não pode o mesmo ser-nos dado por Deus através do seu Espírito. Esse é um argumento tolo! Pois é dito que Cristo é nosso, embora O tenhamos recebido. Os nossos olhos são nossos embora não os tenhamos criado! E em seguida, você usa outro argumento, alicerçado em Lucas 23.34: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Você afirma que se a nossa vontade não é livre, então teria sido mais certo se Jesus tivesse desculpado os seus assassinos, por não terem eles “livre-arbítrio”, e nem poderem eles agir de outra maneira. A resposta, entretanto, encontra-se nas próprias palavras de nosso Senhor: “…não sabem o que fazem”. Poderia ser dito ainda mais claramente que Cristo estava afirmando que seus algozes eram incapazes de querer fazer o que é bom? Como poderiam querer fazer aquilo que desconheciam? Nenhuma afirmativa mais forte pode ser apresentada acerca da pobreza da vontade humana. Não somente a vontade humana não pode fazer o bem, mas também nem ao menos reconhece quanto mal está fazendo, nem conhece no que consiste o bem! Em seguida, você usa novamente a passagem de João 1.12: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que creem no seu nome”, e argumenta que não lhes poderia ter sido conferido o direito de tornarem-se filhos de Deus, se não houvesse liberdade da vontade. Atentemos cuidadosamente ao que diz esse versículo. João fala da completa transformação de quem, sendo filho do diabo, passa a ser um filho de Deus. Esse alguém nada faz; antes, é transformado em algo! Tornamo-nos filhos de Deus através da operação de Deus, e não por qualquer atuação do “livre-arbítrio” em nós. João está nos dizendo que o evangelho da graça, que não impõe a exigência de obras, cria uma esplêndida oportunidade para todos os homens tornarem-se filhos de Deus, se vierem a crer no Senhor.
Todavia, esse querer e esse crer são questões acerca das quais eles não tinham qualquer conhecimento prévio. Muito menos ainda, eles poderiam fazer essas coisas contando apenas com suas próprias forças. Os homens jamais poderiam conceber, por si mesmos, um evangelho que envolvesse fé em Cristo, como Filho de Deus e Filho do homem. Como, portanto, poderiam eles estar dispostos ou ser capazes de receber o evangelho? João não estava anunciando as virtudes do “livre-arbítrio”, mas riquezas do Reino de Deus, dadas a conhecer ao mundo inteiro, através do evangelho. João também mostrou quão poucos são aqueles que recebem o evangelho, exatamente porque o “livre-arbítrio” dos homens se lhe opõe. O poder do “livre-arbítrio” resume-se nisto — Satanás domina-o inteiramente, de tal maneira que o “livre-arbítrio” rejeita a graça de Deus. E também rejeita o Espírito Santo, o qual cumpre em nós a lei, visto que o “livre-arbítrio” imagina que é capaz de obedecer à lei mediante os seus próprios esforços.
Por fim, você cita Paulo como apoio à sua posição. (Paulo, o grande adversário da ideia do “livre-arbítrio”!) Você usa o trecho de Romanos 2.4: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” E então indaga: “Como poderiam ser acusados de desprezar as realidades divinas, aqueles que não possuem o “livre-arbítrio”? Visto que Deus é o Juiz que compele os homens a praticarem o mal, como poderia ele condená-los?” Será que você não vê que as palavras de Romanos 2.4 são uma advertência, cujo propósito é fazer os ímpios perceberem quão incapazes são? Tendo-os humilhado, Deus queria prepará-los para receber a sua graça.
