sexta-feira, 24 de julho
Como nos conformamos com Cristo e deixamos de seguir o mundo?

Como nos conformamos com Cristo e deixamos de seguir o mundo?

Transcrição de áudio

Todos querem ser melhores. Queremos melhorar, queremos mudar e queremos crescer. Se você está em Cristo, você é uma nova criatura. Essa é uma mudança radical. Mas isso não apaga o fato de que todos os dias você se sente dividido, impulsionado para uma nova vida e puxado para uma vida passada. Essa agonia entre a pessoa antiga que você era e a nova pessoa que você está tentando ser é uma tensão que às vezes pode parecer insuportável, como estar morto e vivo ao mesmo tempo. 

Maria escreve de Dublin, Irlanda: “Pastor John, olá! Em Romanos 12 a 15, Paulo oferece orientação prática para os cristãos que vivem em resposta à misericórdia de Deus. Ele começa exortando os crentes a oferecerem seus corpos ‘como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus’, em Romanos 12:1, o que parece um chamado bastante obscuro e radical. O que significa viver como ‘um sacrifício vivo’ em nosso dia a dia? Paulo também nos chama a ‘não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente’, em Romanos 12:2. Como essa transformação se manifesta nos pensamentos, decisões e ações de um cristão, especialmente quando enfrentamos fortes pressões sociais para nos conformarmos a qualquer coisa, menos a Cristo?

O fascinante é que, ao juntarmos as duas perguntas de Maria, surge uma terceira que lança luz sobre as outras duas. Eis o que quero dizer. Sua primeira pergunta é: “O que significa viver como um sacrifício vivo?”. Parece paradoxal: “um sacrifício vivo”. A segunda pergunta é: “Como o mandamento de renovar a mente se concretiza na vida cristã?”.

Agora, a terceira pergunta que estou fazendo é: “Qual a relação entre esses dois imperativos em Romanos 12:1 e Romanos 12.2?” Por um lado, tornar-se “um sacrifício vivo”; por outro, “sejam transformados pela renovação da sua mente” (Romanos 12.1-2). Como Paulo vê a relação entre viver como mortos — sacrifícios vivos — e viver como pessoas transformadas? Essa é a minha pergunta.

Sacrifícios Vivos

Segue o texto, só para garantir que todos o tenham em mente:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12.1-2)

Primeiro, o que significa ser sacrifícios vivos? É claramente um paradoxo: “vivos” significa estar vivo; “sacrifícios” significa estar morto no altar, imolado como um cordeiro. O que isso significa? Ele disse em Romanos 6.6: “sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos”.

Então ele transformou essa morte — essa crucificação de nossa velha natureza, experimentada na conversão — em um imperativo contínuo em Romanos 6.11, razão pela qual se conecta tão bem com o capítulo 12: “Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.” (Romanos 6:11).

Portanto, você morreu; considere-se morto para o pecado, mas vivo para Deus em Cristo Jesus. Se você se considera morto para o pecado, então existe um você que está morto e existe um você que se considera morto. Esse é o paradoxo ao qual Paulo se refere em Romanos 12.1: “Apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo”. Você está vivo para Deus e morto no altar do sacrifício: um sacrifício vivo.

Mente Renovada

O paralelo mais próximo seria Romanos 6:13, que diz: “Não ofereçais cada um dos membros do seu corpo” — aí você tem a palavra “ofereçais” (como em 12.1) e “membros do seu corpo”— “ao pecado como instrumentos de iniquidade, mas oferecei-vos a Deus” — que é exatamente o que Paulo diz em Romanos 12 — “como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça” (Romanos 6.13).

Ser “um sacrifício vivo” é experimentar a morte do seu eu controlado pelo desejo do pecado e experimentar uma vida controlada pelo desejo de Deus e da sua justiça — morto para o velho homem, que amava e era controlado pelo pecado, e vivo para o novo homem, que ama a Deus e à sua justiça. Esta é a sua “adoração espiritual”, porque é isso que a adoração significa — ou seja, o desejo supremo de desfrutar de Deus e dos seus caminhos acima de qualquer outra coisa.

Em seguida, vem o segundo imperativo em Romanos 12.2: “Transformai-vos pela renovação da sua mente”. Ora, em Romanos 1.26 e 28, Paulo havia se referido aos incrédulos como tendo “uma disposição mental reprovável” que anseia por prazeres pecaminosos, como o comportamento homossexual. Esse era o contexto em Romanos 1, e agora nossas mentes devem ser renovadas, o que inclui uma nova maneira de avaliar o que é certo e o que é desejável.

Portanto, você pode ver como a transformação de Romanos 12.1 está intimamente relacionada ao sacrifício vivo de 12.2. Ambos se referem a uma espécie de morte para os velhos desejos, as antigas avaliações de bem e mal, certo e errado, belo e feio, desejável e indesejável. Agora, quando pergunto sobre a relação entre esses dois imperativos, não é surpreendente encontrá-los conectados em Colossenses 3. É por isso que foi tão esclarecedor para mim fazer essa terceira pergunta, porque assim que a fiz, lembrei-me de textos em Colossenses e Efésios que fazem o que estou fazendo — eles unem os dois.

Espírito renovado

Em Colossenses 3.1-10, você encontra tanto a morte do meu velho eu quanto a renovação do meu novo eu. Veja Colossenses 3.3 e seguintes:

“Porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. […] Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena [e sejamos um sacrifício vivo]: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; […] Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem [morto] com os seus feitos e vos revestistes do novo homem, que se refaz.” (Colossenses 3.3-10)

Existe uma ligação entre a morte (“sacrifício vivo”) e a renovação: “que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3.10).

Ora, isso soa como se Paulo estivesse limitando a renovação da mente simplesmente ao que a mente conhece . Mas tenho enfatizado e sugerido desde o início que ela inclui a maneira como a mente avalia e como desejamos ou nos sentimos por causa dessa avaliação. Isso fica mais claro quando observamos a mesma sequência de pensamento em Efésios 4.22-24, onde Paulo novamente relaciona a morte do velho eu e a renovação do novo eu, assim como em Romanos 12.

Eis o que Efésios 4.22-24 diz: “Vos despojeis do velho homem [isto é, do vosso eu morto], que se corrompe segundo as concupiscências do engano,” — essa é a chave — “e… vos renoveis”. Em vez de dizer “transformai-vos pela renovação da vossa mente”, como em Romanos 12, ele diz “vos renoveis no espírito do vosso entendimento” — isso é tão interessante, tão provocativo. “E… vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.”.

Conformados a Cristo

Em resumo, esses dois mandamentos em Romanos 12 acabam sendo praticamente idênticos em nossa experiência. O sacrifício vivo de 12.1 enfatiza o velho eu que precisa morrer, enquanto a transformação em renovação de 12.2 enfatiza o que substitui o velho eu que morre. O que tenho enfatizado é que ambos envolvem a nova maneira como a mente avalia e deseja. “O espírito da mente” não é apenas algo que pensa. Ele tem um espírito. Ele tem uma maneira de avaliar e desejar. A nova mente transformada avalia de forma diferente, valoriza as coisas de forma diferente, prefere de forma diferente, e é daí que vem seu poder e liberdade.

Acho que isso contribui muito para responder à última pergunta de Maria, que foi: “Como a transformação de um cristão confronta as fortes pressões sociais para se conformar a qualquer coisa, menos a Cristo?” A resposta é que confrontamos essas pressões com uma mente renovada que avalia as coisas de forma diferente, deseja de forma diferente, de modo que as pressões do mundo não têm o mesmo poder irresistível que antes tinham. Experimentamos tanto poder quanto liberdade porque não apenas fazemos o que é certo — amamos fazer o que é certo. Fomos renovados no espírito da nossa mente. Somos sacrifícios vivos.


Autor: John Piper

John Piper é um dos ministros e autores cristãos mais proeminentes e atuantes dos dias atuais, atingindo com suas publicações e mensagens milhões de pessoas em todo o mundo. Ele exerce seu ministério pastoral na Bethlehem Baptist Church, em Minneapolis, MN, nos EUA desde 1980.

Parceiro: Desiring God

Desiring God
Ministério de ensino de John Piper que, há mais de 30 anos, supre ao corpo de Cristo com livros, sermões, artigos.

Ministério: Ministério Fiel

Ministério Fiel
Ministério Fiel: Apoiando a Igreja de Deus.

Veja Também

Ele morreu mil vezes — e viveu.

John Piper apresenta a impressionante história de Adoniram Judson, pioneiro das missões protestantes na Birmânia …