segunda-feira, 29 de junho

A vida cristã na meia-idade

Os perigos e os privilégios da meia-idade para um cristão

Este artigo reflete sobre os desafios espirituais da meia-idade e do envelhecimento cristão à luz das Escrituras. A partir dos exemplos de Davi, Salomão e Ezequias, o texto alerta contra acomodação, cinismo e apego à juventude, mostrando como perseverar em santidade até o fim. Uma meditação bíblica profunda sobre maturidade espiritual, discipulado, envelhecimento, fidelidade cristã e perseverança na fé. Escrito por Michele Morin, professora de Bíblia e escritora. Ela é uma mãe e avó grata e permanece ativa nos ministérios educacionais de sua igreja local. Você pode encontrar mais de seus escritos em seu site michelemorin.net.


Tenho em mente a imagem da senhora piedosa que quero ser um dia: de voz suave, gentil com todos, cheia de sabedoria. Tendo passado meio século sob a lixa santificadora de Deus, eu já deveria estar bem encaminhada nesse sentido. E, fazendo um balanço, percebo que não preciso mais controlar tanto meu temperamento como antes, e há pouquíssimas coisas que me tentam a cobiçar. O que estou aprendendo, porém, é que, à medida que envelheço, peco de maneira diferente. O pecado ainda está “à espreita”. Apenas se apresenta de forma diferente.

Posso facilmente ser enganada e confundir apatia com ser divinamente calma e serena. Posso me confortar com a ausência de pecados “ardentes” como a luxúria e a ira — mas posso estar cega para o orgulho, o egoísmo e a preguiça que se infiltraram em seus lugares. O tempo pode nos tornar preguiçosos, e todos estamos sujeitos à sua sutil deriva. Talvez a pergunta crucial para o cristão que envelhece seja: “Estou eliminando o pecado ou apenas troquei um caminho destrutivo por outro?”

Os tristes fracassos de Davi, Salomão e Ezequias sugerem três advertências solenes para o cristão experiente de meia-idade que deseja terminar bem a sua jornada.

1. Cuidado com a tentação de se acomodar.

Quando era bem mais jovem, ouvi um respeitado líder cristão admitir: “Eu poderia tirar o pé do acelerador hoje, e ninguém jamais saberia. Mas eu tiraria, e Deus saberia.” Da perspectiva diabólica de Maldanado, C.S. Lewis descreve os “longos, tediosos e monótonos anos de prosperidade ou adversidade da meia-idade” como “um clima excelente para campanhas políticas” (Cartas de um diabo a seu aprendiz [The Screwtape Letters], 155). Ele acrescentou: “De fato, o caminho mais seguro para o Inferno é o gradual — a suave inclinação, macia sob os pés, sem curvas repentinas, sem marcos, sem placas indicativas” (61).

Essa descrição se encaixa perfeitamente no “tempo em que os reis saem para a batalha”, pois Davi, acomodado “no terraço do palácio real”, se colocou em risco de ruína moral em vez de cuidar dos negócios (2 Samuel 11.1-2). Mais tarde, na espiral descendente da monarquia, o rei Ezequias, preocupado principalmente com a “paz e segurança” em seu tempo (2 Reis 20.19), escolheu “o caminho mais fácil” no final de seu reinado. Aparentemente, se ele pudesse seguir em segurança pelo resto da vida, não se importaria que a Babilônia fosse, eventualmente, o instrumento do julgamento de Deus sobre Israel.

Com os retrocessos de Davi e Ezequias diante de nossos olhos, podemos nos perguntar: “E quanto a mim? À medida que envelheço, vou me acomodar ou vou perseverar?” Pessoalmente, manter o pé no acelerador significará estudo profundo e preparação para cada oportunidade de ministério, resistindo à tentação de improvisar um devocional de vinte minutos com fragmentos de ensinamentos anteriores. Significará que eu reconheça os pecados sutis que passam despercebidos pelos outros, ouvindo, em vez disso, a voz do Espírito enquanto Ele filtra cada pensamento, palavra e ação. Significará que nunca deixarei de orar fervorosamente, pedindo a Deus que me dê poder para me sustentar e me manter na batalha contra o pecado e no cumprimento do meu chamado.

2. Cuidado com a tendência ao cinismo.

Ao chegarmos à meia-idade, provavelmente já acumulamos uma boa quantidade de motivos para sucumbir ao cinismo: a decepção com filhos adultos pródigos ou distantes, os desafios da geração sanduíche(pessoas que precisam tanto cuidar dos filhos quanto dos pais idosos), a dor de diagnósticos difíceis ou até mesmo a morte de um cônjuge. Tudo isso é suficiente para nos fazer juntar a Salomão no lamento pelos dias em que “o gafanhoto se arrasta, e o desejo lhe falta” (Eclesiastes 12.5).

Mas a descrição arrepiante de Judas sobre “árvores infrutíferas no final do outono, duas vezes mortas, arrancadas pela raiz” me leva a buscar a frutificação em vez do cinismo preguiçoso nesta época do ano (versículo 12). Se eu ceder ao cinismo, me verei incapaz de entrar com empatia no mundo dos jovens, dos familiares e amigos. Desdenhosa e emocionalmente inacessível, logo me esquecerei do que era se importar.

Em contraste, o apóstolo Paulo suportou toda a indignidade, trauma e tipo de “dor na igreja” que podemos imaginar, sem se curvar ao cinismo e sem abandonar a obra. Com um otimismo inabalável, ele nunca duvidou da capacidade e da vontade de Deus de “fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos” em pessoas, igrejas e situações que ele poderia facilmente ter desprezado (Efésios 3.20).

Com os olhos fixos no caráter de Deus, o tempo pode nos testar e provar, mas também pode nos suavizar. Passamos por momentos difíceis, mas também vimos a bondade e a fidelidade de Deus sob inúmeras perspectivas. Pela graça, podemos escolher onde focar nossa atenção. Podemos continuar ouvindo as mágoas e os desafios das pessoas à nossa volta.

Já superamos as fases de educar filhos há muito tempo, mas a compaixão inspirada pelo Espírito Santo nos mantém atentos e compassivos à mãe exausta de uma criança pequena. Sabemos com certeza que o destino do mundo livre não depende do teste de direção reprovado do nosso neto adolescente, mas resistimos à tentação de remediar sua decepção com uma solução superficial. Em vez disso, confiamos na graça e flexibilidade de Deus para nos permitir entrar no mundo dos adolescentes — e nos mundos de todos os outros tipos de pessoas que encontramos.

3. Cuidado com o anseio de se apegar à juventude.

Será que a falha moral de Davi com Bate-Seba foi sintoma de seu desejo de provar que ainda era um conquistador? Será que a beleza juvenil dela foi o gatilho que o fez perder o bom senso? Quando escreveu Eclesiastes, Salomão estaria lamentando os efeitos do envelhecimento em suas articulações? Independentemente das respostas a essas perguntas, suas vidas certamente atestam o perigo de perseguir uma eterna primavera.

Nossa cultura também idolatra a juventude e teme o processo de envelhecimento, tendo há muito tempo perdido o contato com a visão bíblica de envelhecer bem. Os cabelos grisalhos, que as Escrituras descrevem como “uma coroa de glória” (Provérbios 16.31), sinalizam obsolescência ou até mesmo invisibilidade para o homem ou a mulher cujo maior tesouro se encontra neste mundo. Certamente, não nos rendemos às mudanças do nosso corpo sem lutar. Praticamos exercícios e nos alimentamos de forma equilibrada — mas não damos ouvidos aos maus conselhos de marcas que nos dizem que podemos parar o tempo ao comprar e usar seus produtos. Tampouco buscamos o prazer e fazemos escolhas irresponsáveis ​​na tentativa de nos sentirmos “vivos” novamente.

Acolher o dom da idade significa orientar mulheres mais jovens, em parceria com Deus, na formação da próxima geração de discípulas confiantes em Cristo e estudiosas da Palavra. Ao administrarmos nossa experiência e confiarmos em Deus diante da realidade de nossa força que diminui, estaremos preparadas para servir ao corpo de Cristo com uma maturidade que só se conquista com fidelidade a longo prazo.

A graça para terminar bem a vida nos será concedida por meio de hábitos humildes e rotineiros de santidade, disciplinas espirituais que não proporcionam uma grande descarga de dopamina, mas sim um alicerce para uma vida de fé. A comunhão regular com Deus por meio de sua Palavra, a confissão de pecados e o recebimento diário da graça para a vida cristã “normal” não parecem muito atraentes a menos que sejam vistos à luz do foco preciso de Paulo:

Irmãos, não considero que eu mesmo já o tenha alcançado. Mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Filipenses 3.13-14)

O prêmio não é uma boa reputação ou um legado brilhante. O prêmio é Cristo, e o compromisso de seguir o seu chamado celestial produz o benefício de uma vida bem vivida. Graças a Deus pela cruz, nosso ponto de partida sagrado e nossa única esperança de uma jornada fiel até o fim.

 

Por: Michele Morin. © Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: The Dangerous Days Past Middle Age | Revisão e edição por Vinicius Lima.


Autor: Michele Morin

Parceiro: Desiring God

Desiring God
Ministério de ensino de John Piper que, há mais de 30 anos, supre ao corpo de Cristo com livros, sermões, artigos.

Ministério: Ministério Fiel

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Ministério Fiel: Apoiando a Igreja de Deus.

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