domingo, 28 de junho

A graça não divide a glória

Porque a salvação depende inteiramente de Cristo

Neste trecho adaptado de Servo arbítrio: a escravidão da vontade, Martinho Lutero apresenta uma defesa contundente da justificação pela fé e da absoluta suficiência da graça de Deus para a salvação. Examinando especialmente os argumentos de Paulo em Romanos 3 e 4, Lutero demonstra que nenhum mérito humano pode contribuir para a aceitação do pecador diante de Deus. Em seu debate com Erasmo, o reformador expõe a incompatibilidade entre a doutrina bíblica da graça e qualquer confiança no livre-arbítrio como fundamento da salvação. Este texto continua relevante por apontar os cristãos para Cristo como a única esperança de justiça diante de Deus.

A doutrina da salvação pela fé em Cristo prova que o livre-arbítrio é falso

Em Romanos 3.21-25, Paulo proclama com toda confiança: “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé…” Essas palavras são como raios contra a ideia do “livre-arbítrio”. Paulo faz distinção entre a justiça conferida por Deus e a justiça que vem mediante a observância da lei. O “livre-arbítrio” só poderia ser uma realidade se o homem pudesse ser salvo mediante a observância da lei. Não obstante, Paulo demonstra claramente que somos salvos sem dependermos, em absoluto, das obras da lei. Não importa o quanto possamos imaginar um suposto “livre-arbítrio”, capaz de praticar boas obras ou de tornar-nos bons cidadãos, Paulo continua asseverando que a justiça dada por Deus é de natureza inteiramente diferente. É impossível que o “livre-arbítrio” consiga resistir a assaltos de versículos como esses.

Estes versículos desfecham ainda outro raio contra o “livre-arbítrio”. Neles, Paulo traça uma linha distintiva entre os crentes e os incrédulos (Rm 3.22). Ninguém pode negar que o suposto poder do “livre-arbítrio” é bem diferente da fé em Jesus Cristo. Mas sem fé em Cristo, conforme Paulo esclarece, ninguém pode ser aceito por Deus. E se alguma coisa é inaceitável para Deus, então é pecado. Não pode ser algo neutro. Por conseguinte, o “livre-arbítrio”, se existe, é pecado, visto que se opõe à fé e não redunda em glória a Deus.

Romanos 3.23 constitui-se em mais outro raio. Paulo não diz: “todos pecaram, exceto aqueles que praticam boas obras mediante seu próprio “livre-arbítrio””. Não há exceções. Se fosse possível nos tornarmos aceitáveis diante de Deus através do “livre-arbítrio”, então Paulo seria um mentiroso. Ele deveria ter dado margem a exceções. No entanto, Paulo afirma, categoricamente, que em face do pecado ninguém pode realmente glorificar e agradar a Deus. Todo aquele que agrada ao Senhor deve saber que Deus está satisfeito com ele. Porém, a nossa experiência nos ensina que coisa alguma em nós agrada a Deus. Pergunte àqueles que defendem o “livre-arbítrio” se existe neles alguma coisa que agrada a Deus. Eles serão forçados a admitir que não existe. E é isto que Paulo claramente afirma.

Até mesmo aqueles que acreditam no “livre-arbítrio” precisam concordar comigo que não podem glorificar a Deus, contando apenas com seus próprios recursos. A despeito de seu “livre-arbítrio”, eles têm dúvida se podem agradar a Deus. Assim, eu provo, com base no testemunho da própria consciência deles, que o “livre-arbítrio” não agrada a Deus. Apesar de todos os seus esforços e de seu empenho, o “livre-arbítrio” é culpado do pecado de incredulidade. Portanto, vemos que a doutrina da salvação pela fé é completamente contrária a qualquer ideia de “livre-arbítrio”.

Não há lugar para qualquer ideia de mérito ou recompensa pelas boas obras

Aqueles que pregam o “livre-arbítrio” afirmam que se não há “livre-arbítrio”, então também não há lugar para o mérito ou para a recompensa. O que dirão os defensores do “livre-arbítrio” a respeito da palavra “gratuitamente”, em Romanos 3.24? Paulo diz que os crentes são “justificados gratuitamente, por sua graça”. Como interpretam “por sua graça”? Se a salvação é gratuita e oferecida pela graça divina, então não se pode conquistá-la ou merecê-la. No entanto, Erasmo argumenta que a pessoa deve ser capaz de fazer alguma coisa a fim de merecer a sua salvação, ou ela não merecerá ser salva. Erasmo pensa que a razão pela qual Deus justifica uma pessoa e não outra, é que uma delas usou de seu “livre-arbítrio”, e tentou tornar-se justa, enquanto a outra não o fez. Ora, isso transforma Deus em alguém que faz distinção entre, ao passo que a Bíblia ensina que Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34). Erasmo e algumas outras pessoas, como ele, admitem que os homens conseguem fazer muito pouco, através de seu “livre-arbítrio”, para obterem a salvação. Afirmam que o “livre-arbítrio” tem apenas um pouco de merecimento — não é digno de muita recompensa. E, não obstante, ainda pensam que o “livre-arbítrio” torna possível às pessoas tentarem encontrar a Deus. Imaginam, igualmente, que se as pessoas não tentam encontrá-Lo, cabe exclusivamente a elas a culpa, se não recebem a graça divina.

Portanto, sem importar se esse “livre-arbítrio” tem grande ou pequeno mérito, o resultado é o mesmo. A graça de Deus seria obtida por meio do “livre-arbítrio”. Todavia, Paulo nega toda a noção de mérito quando afirma que somos justificados “gratuitamente”. Aqueles que dizem que o “livre-arbítrio” possui apenas um pequeno mérito, erram tanto como aqueles que dizem que ele possui muito mérito, pois ambos ensinam que o “livre-arbítrio” tem mérito suficiente para obter o favor de Deus. Portanto, em quase nada diferem um do outro.

Na verdade, esses defensores da ideia do “livre-arbítrio” nos dão um perfeito exemplo do que significa “saltar da frigideira para dentro do fogo”. Quando dizem que o “livre-arbítrio” tem apenas um pequeno mérito, pioram a sua posição, ao invés de melhorá-la. Pelo menos aqueles que dizem que o “livre-arbítrio” envolve um grande mérito (os chamados “pelagianos”) conferem um elevado preço à graça divina, porquanto concebem que um grande mérito é necessário para alguém obter a salvação. Todavia, Erasmo barateia a graça divina, dizendo ser possível obtê-la por meio de um débil esforço. No entanto, Paulo transforma em nada essas duas ideias usando apenas uma palavra — “gratuitamente” (Rm 3.24). Mais adiante, em Romanos 11.6, ele declara que a nossa aceitação diante de Deus depende apenas da graça de Deus: “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”. O ensino paulino é perfeitamente claro. Não existe tal coisa como mérito humano aos olhos de Deus, sem importar se esse mérito é grande ou pequeno. Ninguém merece ser salvo. Ninguém pode ser salvo através das obras. Paulo exclui todas as supostas obras do “livre-arbítrio”, estabelecendo em seu lugar apenas a graça divina. Não podemos atribuir a nós mesmos a menor parcela de crédito para nossa salvação; ela depende inteiramente da graça divina.

Obras nada têm a ver com a justiça do homem diante de Deus

Passarei agora a considerar os argumentos de Paulo, em Romanos 4.2-3: ““Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”. Ora, Paulo não nega que Abraão era um homem justo. Mas o ponto em questão é que essa justiça não lhe outorgou a salvação. Ninguém discorda que as obras más não são aceitáveis diante de Deus. Isso é óbvio. O argumento paulino, entretanto, é que nem mesmo as boas obras nos tornam aceitáveis diante de Deus. Elas merecem somente a sua ira, jamais o seu favor. Em Romanos 4.4,5, Paulo contrasta a pessoa “que trabalha” com aquela que “não trabalha”. A justificação, que equivale a aceitação diante de Deus, não é atribuída “ao que trabalha”, mas àquele que “não trabalha”, mas crê no Senhor. Não há posição intermediária.

 

O trecho abaixo foi adaptado com permissão do livro Servo arbítrio: a escravidão da vontade, de Martinho Lutero, Editora Fiel


Autor: Martinho Lutero

Martinho Lutero – Martinho Lutero, em alemão Martin Luther, (Eisleben, 10 de novembro de 1483 – Eisleben, 18 de fevereiro de 1546) foi um sacerdote católico agostiniano e professor de teologia germânico que foi figura central da Reforma Protestante. Que ficando contra os conceitos da Igreja Católica veementemente contestando a alegação de que a liberdade da punição de Deus sobre o pecado poderia ser comprada, confrontou o vendedor de indulgências Johann Telzel com suas 95 Teses em 1517. Sua recusa em retirar seus escritos a pedido do Papa Leão X em 1520 e do Imperador Carlos V na Dieta de Worms em 1521 resultou em sua excomunhão pelo papa e a condenação como um fora-da-lei pelo imperados do Sacro Império Romano. Lutero ensinava que a salvação não se consegue apenas com boas ações, mas é um livre presente de Deus, recebida apenas pela graça, através da fé em Jesus como único redentor do pecador. Sua teologia desafiou a autoridade papal na Igreja Católica Romana, pois ele ensinava que a Bíblia é a única fonte de conhecimento divinamente revelada e opôs-se ao sacerdotalismo, por considerar todos os cristãos batizados como um sacerdócio santo. Aqueles que se identificavam com os ensinamentos de Lutero eram chamados luteranos. Sua tradução da Bíblia para o alemão, fez o livro mais acessível, causando um impacto gigantesco na Igreja e na cultura alemã. Promoveu um desenvolvimento de uma versão padrão de língua alemã e influenciou a tradução para o inglês da Bíblia do Rei James. Seus hinos influenciaram o desenvolvimento do ato de cantar em igrejas. Seu casamento com Catarina Von Bora estabeleceu um modelo para a prática do casamento clerical, permitindo o matrimônio de ministros protestantes.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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