segunda-feira, 26 de fevereiro

Não existe educação neutra

Moldados pela cultura

Este artigo é um trecho adaptado com permissão do livro Amando a Deus no mundo, de Heber Campos Jr, Editora Fiel.[1] Trataremos mais sobre educação no capítulo 15 do meu livro Amando a Deus no mundo.[2] João Calvino, Daniel vol. 1, caps. 1-6 (São Paulo: Parakletos, 2000), p. 52; Ian M. Duguid, Da- niel: Fé que passa pela adversidade (São Paulo: Cultura Cristã, 2016), p. 18-19.[3] Ian Duguid prefere dizer que eles “resistiram ao programa de renomeação dos babilônicos” por- que ainda utilizavam seus nomes hebraicos (1.11, 19; 2.17). Para Duguid, eles viveram com dois nomes como “lembrete de sua dupla identidade” ou cidadania. Duguid, Daniel, p. 19-20. Ainda que eu aprecie sua analogia à dupla identidade, não podemos afirmar que eles “resistiram” aos nomes. No capítulo 3, por exemplo, o narrador se refere aos amigos de Daniel só usando os nomes babilônicos (3.12, 13, 14, 16, 19, 20, 22, 23, 26, 28, 29, 30).[4] C. F. Keil, Biblical Commentary on the Old Testament: The Book of Daniel (Edinburgh: T&T Clark, 1884), p. 80; Young, Daniel, p. 44; Archer, “Daniel”, p. 35; Chisholm, Handbook on the Prophets, p. 295; Olyott, Ouse Ser Firme, p. 17-18; Veith, De todo o teu entendimento, p. 28.[5] Calvino, Daniel vol. 1, p. 58-60, 68-69. Ian Duguid tem a mesma interpretação de que a atitude de Daniel teria sido de castidade, de dependência de Deus (própria de um cativo). Baseado em Da- niel 10.3, ele diz que se a refeição babilônica fosse idólatra ou não fosse kosher, Daniel não poderia ter tido manjares reais posteriormente. Duguid, Daniel, p. 22. No entanto, creio que o texto citado por Duguid também apresenta um problema para a sua interpretação. Se tomar refeições reais era deixar de depender de Deus, então Daniel também não poderia ter adotado essa prática posterior- mente, como o capítulo 10 afirma ter acontecido. Me parece que alimentar-se de tais banquetes durante sua vida de alta política pode envolver uma refeição sem idolatria e sem quebra de regras alimentares, mas é mais difícil provar que tais refeições ainda seriam exemplo de frugalidade.', 'Brazilian Portuguese Male');document.getElementById('pausar').style.display = 'inline-block';document.getElementById('ouvir').style.display = 'none';" value="Ouvir Artigo">Ouvir Artigo

Toda educação tem uma proposta redentiva. Isto é, ela visa transformar a pessoa segundo os seus princípios e valores. É interessante que nos conscientizemos disso quanto a todo tipo de educação. Não há educação neutra. Toda educação é confessional (os valores da cosmovisão), seja ela explícita ou não. Dependendo da cosmovisão que norteia o processo educacional, trabalhar na educação pode ser tão maléfico quanto outras profissões que normalmente são vistas com desconfiança pelo crente. Demonstramos ingenuidade quando não achamos uma boa ideia se um jovem na igreja almeja ter cargo político ou se ela almeja atuar no teatro ou na TV (ambos nos transmitem a ideia de contextos sujos nos quais a prática profissional não fica incontaminada), mas achamos uma ótima escolha quando alguém se dispõe a ser professor (como se a pedagogia fosse uma área mais tranquila para o cristão e isenta de mundanismo). Quando tratamos de profissões como mais próximas do bem (pedagogia e enfermagem) ou do mal (marketing, artes cênicas), refletimos uma visão simplista do mundanismo. É verdade que algumas profissões podem ser mais carregadas de ideologias pagãs do que outras, mas não podemos ser ingênuos quando o assunto é educação.[1]

E qual era o propósito espúrio por detrás da educação babilônica? Qual era o seu intento transformador? Considerando que foram selecionados moços ainda bem jovens (idade favorável para serem moldados), que tiveram seus nomes modificados, e que passariam por três anos de educação babilônica, fica claro que o propósito de todo o processo educacional era deletar a identidade dos jovens súditos.[2] A Assíria procurava deletar a identidade de seus súditos mediante mistura de povos (estratégia social), enquanto a Babilônia enxergava que a força para mudar a cabeça de alguém estava na educação. Nabucodonosor não queria que esses jovens preservassem o espírito nacionalista, a paixão pelo seu povo de origem. O que pa- recia privilégio em meio aos cativos (ser alimentado com a melhor comida e receber uma educação nobre; seriam sustentados só para estudar) era na verdade o pior tipo de aprisionamento, pois visava uma mudança de mentalidade e emoções.

Parece-nos estranho que Daniel e seus amigos aceitassem a mudança de nome, e até a educação babilônica pagã, mas rejeitassem a dieta alimentar.[3] Para nós, comer uma comida diferente numa terra estranha é mais tolerável do que receber nomes de deuses pagãos ou ter que estudar magia e astrologia. Mas por que Daniel tolera o nome e a educação pagã, mas não a comida? De acordo com Calvino, a abstinência era para se lembrar de que era um exilado; ele não queria perder-se nos prazeres babilônicos, embora fosse lícito fazê-lo.22 No entanto, os comentaristas atuais tendem a enxergar que comer com os babilônicos envolvia uma desobediência explícita, porque os babilônicos quebravam as regras de alimentação do judeu (co- miam sem drenar o sangue; não faziam distinção entre animais puros e impuros; Lv 11) e porque cada refeição era uma ofer- ta aos deuses, um ato idólatra (cf. Dn 5.4).[4] “Contaminar-se com as finas iguarias do rei” não era apenas acostumar-se com o conforto babilônico, mas envolvia quebrar as leis cerimoniais (dieta alimentar) e morais (adoração idólatra) que todo judeu deveria obedecer.[5]

Ainda assim, podemos achar estranho que uma regra alimentar tenha sido o grande temor de contaminação. No entanto, creio que há um princípio valioso aqui. Aceitar a mudança de nome e até a educação pagã é como tolerar certo grau de impiedade na escola ou na empresa, contanto que não afete o nosso interior. Afinal, não temos como evitar toda prática do mal neste mundo perverso. Toleramos muita iniquidade ao nosso redor. Porém, quando os pa- drões impostos começam a mudar a nossa mentalidade, o botão de alerta precisa ser acionado. E julgo que a estratégia mais eficaz do mundo é a de conduzir você a pensar com os mesmos padrões que eles pensam em coisas que aparentemente não são pecaminosas.

Conformar-se com este século (Rm 12.2) não se refere somente aos atos pecaminosos grotescos que podemos cometer, mas envolvem uma mudança de mentalidade, mudança de cosmovisão. Deixe-me dar alguns exemplos.

Comecemos com o contato físico no namoro. Jovens cristãos querem ter o mesmo tipo de contato físico no namoro que um descrente, com a exceção da consumação sexual (acham que assim não pecam). Isto é, desenham uma linha a qual não podem cruzar, só que acham que tudo que antecede é lícito. A licitude de beijos e abraços não só é questionável (alvo de debate), mas é no mínimo imprudente. Fazem todo o preparativo para o ato sexual e depois não sabem porque lutam para não cair em tentação. Isso significa que várias das lutas nessa área provêm de uma cosmovisão que já foi contaminada com padrões mundanos, ainda que muitos não o julguem errado.

Como segundo exemplo, observe aquele que trabalha duramente para, nas suas palavras, “dar o melhor para a minha família”. Homens costumam trabalhar pensando no “melhor” para suas famílias, quando na verdade se referem a coisas que o dinheiro pode comprar (pagar a faculdade particular ou a viagem do filho para o exterior, trocar os móveis ou fazer a reforma na casa conforme gosto da esposa). O “melhor” quase sempre está relacionado a confortos ou a educação. Se isso é o “melhor”, há pais que nunca conseguirão dar o melhor. A Bíblia, no entanto, nos ensina que o “melhor” que um pai pode dar não tem custo (como buscar o reino e a sua justiça, Mt 6.33), e não está restrito a uma classe social. Precisamos de uma renovação da mente nessa visão de trabalho e família.

Ainda dentro do tema família, um terceiro exemplo pode ser a questão da quantidade de filhos. Casais cristãos vivem confusos quanto a ter filhos às vezes por adotar padrões mundanos. Enquanto mulheres do período bíblico lamentavam profundamente serem estéreis e entendiam o ter muitos filhos como sinal de bênção divina (Sl 127.3-5), as jovens mulheres de hoje têm medo de ter filho, outros casais têm receio de ter mais do que um, outros pensam em não passar de dois em hipótese alguma. Alegam que é uma questão de custo, mas parece ser muito mais um espírito acomodado e temeroso de não “dar conta”. Temos a falsa impressão de que antigamente era fácil ter mais filhos quando, na verdade, nós é que adotamos padrões e expectativas nos quais não cabe mais ter uma família maior do que quatro. Não que os desafios não estejam presentes. Veículo com espaço, quarto de hotel, mesa em restaurante, todos esses detalhes se tornam mais difíceis quando se tem mais do que quatro na família. No entanto, o ponto é que valorizamos a educação de alto nível, valorizamos as viagens, a tal ponto que ter mais filhos não passa de um ideal utópico. A sociedade considera o casal de filhos como a experiência perfeita, acertar na loteria; há aqueles que sonham em ter a criança do outro sexo. Esse tipo de obsessão demonstra que estão mais interessados na experiência própria (ter filho de um determinado sexo) do que no bem-estar dos filhos (ter filhos crentes, independente do sexo). Não quero dar a impressão de que há uma quantidade de filhos que seja biblicamente correta. Há momentos em que não ter filhos é santo. Apenas quero ressaltar que ter ou não ter filhos é regido mais por padrões mundanos antes que por princípios bíblicos.

Um último exemplo seria o concurso público. Muitos brasileiros têm procurado o concurso público como a melhor alternativa para se obter segurança em uma economia tão frágil. Alguns jovens com mais respaldo financeiro passam anos de sua vida adulta apenas estudando não para aprimorar conhecimento, mas para passar no concurso, o que me fez pensar na falta de produtividade dessa massa de brasileiros. Novamente, não há erro inerente ao trabalho em órgãos públicos. Nós precisamos de pessoas que sirvam a sociedade nesses órgãos. O problema é que cristãos o fazem mais pensando em segurança pessoal/familiar do que em serviço comunitário. Essa busca por artifícios humanos que lhes façam seguros é perigosamente semelhante ao pensamento mundano.

Quero enfatizar que nenhum dos quatro exemplos é pecaminoso em si mesmo. Porém, embora não sejam imorais, são fruto de uma cosmovisão mundana. O jovem Daniel não fora moldado pela cultura, mas será que nós não temos sido?

Este artigo é um trecho adaptado com permissão do livro Amando a Deus no mundo, de Heber Campos Jr, Editora Fiel.


[1] Trataremos mais sobre educação no capítulo 15 do meu livro Amando a Deus no mundo.

[2] João Calvino, Daniel vol. 1, caps. 1-6 (São Paulo: Parakletos, 2000), p. 52; Ian M. Duguid, Da- niel: Fé que passa pela adversidade (São Paulo: Cultura Cristã, 2016), p. 18-19.

[3] Ian Duguid prefere dizer que eles “resistiram ao programa de renomeação dos babilônicos” por- que ainda utilizavam seus nomes hebraicos (1.11, 19; 2.17). Para Duguid, eles viveram com dois nomes como “lembrete de sua dupla identidade” ou cidadania. Duguid, Daniel, p. 19-20. Ainda que eu aprecie sua analogia à dupla identidade, não podemos afirmar que eles “resistiram” aos nomes. No capítulo 3, por exemplo, o narrador se refere aos amigos de Daniel só usando os nomes babilônicos (3.12, 13, 14, 16, 19, 20, 22, 23, 26, 28, 29, 30).

[4] C. F. Keil, Biblical Commentary on the Old Testament: The Book of Daniel (Edinburgh: T&T Clark, 1884), p. 80; Young, Daniel, p. 44; Archer, “Daniel”, p. 35; Chisholm, Handbook on the Prophets, p. 295; Olyott, Ouse Ser Firme, p. 17-18; Veith, De todo o teu entendimento, p. 28.

[5] Calvino, Daniel vol. 1, p. 58-60, 68-69. Ian Duguid tem a mesma interpretação de que a atitude de Daniel teria sido de castidade, de dependência de Deus (própria de um cativo). Baseado em Da- niel 10.3, ele diz que se a refeição babilônica fosse idólatra ou não fosse kosher, Daniel não poderia ter tido manjares reais posteriormente. Duguid, Daniel, p. 22. No entanto, creio que o texto citado por Duguid também apresenta um problema para a sua interpretação. Se tomar refeições reais era deixar de depender de Deus, então Daniel também não poderia ter adotado essa prática posterior- mente, como o capítulo 10 afirma ter acontecido. Me parece que alimentar-se de tais banquetes durante sua vida de alta política pode envolver uma refeição sem idolatria e sem quebra de regras alimentares, mas é mais difícil provar que tais refeições ainda seriam exemplo de frugalidade.


Autor: Heber Campos Jr.

Heber De Campos Jr. é bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano JMC. Mestre em História da Igreja pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper e Doutor em Teologia Histórica pelo Calvin Theological Seminary.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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