terça-feira, 15 de outubro
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Os filhos pródigos e a disciplina da igreja

A providência reina, até mesmo sobre os pedidos editoriais. Quando me pediram para dar percepções pastorais sobre a disciplina da igreja, à luz da história do filho pródigo, mal sabia eu onde essa tarefa me levaria, tanto espiritualmente como emocionalmente.

Ouvir novamente o texto de Lucas 15 me fez sentir culpado, porém, ainda mais esperançoso. Sinto-me culpado porque, depois de pastorear a mesma igreja por 26 anos, gostaria de ter um caderno cheio de histórias sobre disciplina na igreja que refletissem a beleza plena do evangelho de Lucas 15.

Eu gostaria de poder contar-lhes sobre todos os cristãos arrependidos que, através de uma disciplina bem implementada na igreja, voltaram para casa com grandes festas organizadas por líderes humildes, cheios de graça, e que, depois disso, foram totalmente recebidos de volta à vida da nossa congregação. Embora eu tenha toneladas de ótimas histórias – histórias da graça sobre conversões e restaurações – eu não tenho muitas histórias sobre disciplina na igreja com as quais eu realmente me anime.

Todavia, meditar na história do filho pródigo também me deixou intrigado e cheio de esperança, especialmente por causa de novas igrejas e pastores que anseiam por uma abordagem da disciplina na igreja mais centrada no evangelho. Como podemos realizar a disciplina na igreja de uma forma diferente? O que precisamos para pôr em prática aquilo que nos permitirá ser uma extensão da mão e do coração corretivos do nosso Pai celestial, de tal forma que o evangelho conduza mais claramente todo o processo? Eis aqui cinco pontos que surgem da parábola do filho pródigo, os quais eu gostaria de salientar.

1. Crie uma cultura de liderança marcada pela perplexidade do evangelho, o arrependimento rejubilante e a oração coletiva. Em cada uma das três parábolas de Lucas 15, “aquele que encontra” (pastor, mulher, pai) o “perdido” (ovelha, moeda, filho) convida os outros para que venham e se alegrem. “Venham ser felizes comigo”. Bons líderes que nunca esquecem que foram “encontrados” em Cristo são melhor treinados para cuidar de outros santos-pecadores. Líderes que estão sendo humilhados, amansados e transformados pelo evangelho tendem a ficar menos chocados quando outros cristãos agem pecaminosamente, e estão mais dispostos a se relacionar com eles quando os mesmos pecam.

2. Ore por, ordene, treine e equipe os líderes da igreja para o discipulado, bem como na disciplina eclesiástica. Nem todo mundo que tem dons de liderança é chamado para ser um líder na igreja. Sabemos disso, portanto vamos agir assim. Além disso, nenhum de nós faz discipulado intuitivamente bem, como também não disciplinamos intuitivamente bem. Líderes envolvidos em ajudar os crentes a crescerem na graça investirão mais prontamente nos deveres (e prazeres) da disciplina da igreja. A busca é um trabalho árduo. Não é fácil ou conveniente buscar filhos mais jovens rebeldes em países distantes ou confrontar filhos mais velhos presunçosos sentados nas reuniões. Somos muito desajeitados em lidar com a confrontação e, ficamos mais sem noção ainda quando se trata do confuso processo de restauração.

3. Coloque o DNA do evangelho no sangue e nos batimentos cardíacos de toda a família da igreja. Quando o filho mais novo “caiu em si”, lembrou-se das coisas boas sobre a casa que ele deixou. Seu primeiro pensamento não foi a respeito do seu irmão mais velho presunçoso, mas do coração generoso do seu pai. Quanto mais acolhedora for a memória sobre a vida em casa (especialmente modelada pelos pais, ou seja, os líderes), mais cedo as filhas e os filhos pródigos arriscarão voltar para casa novamente.

Pregue o evangelho. Somente o evangelho pode criar um ambiente em que o normal é mais arrepender-se que fingir. Vamos nos certificar de que a nossa congregação saiba que o evangelho é tanto para crentes, quanto para não crentes. Vamos nos certificar de que eles saibam que o Pai se entristece tanto com a justiça própria dos filhos mais velhos, quanto com a injustiça dos filhos mais novos. Eu preferiria muito mais pastorear uma igreja cheia de filhos mais novos repatriados do que filhos mais velhos ultraconservadores. As nossas igrejas devem ser ambientes onde o milagre da graça é realizado todas as semanas, e não museus ou necrotérios de espiritualidade morta ou seca.

4. Construa uma cultura de adoração que está tanto no demonstrar quanto no falar do evangelho, e não somente no falar. Lucas 15 contém uma teologia rica, e nos identificamos com esse capítulo profundamente, porque ele se dirige a nós sob a forma de narração. Nós todos nos identificamos com histórias, e essa é, sem dúvida, uma das razões pela qual Jesus fez uso de tantas. A utilização racional e equilibrada dos testemunhos durante os nossos cultos de adoração pode ajudar os membros da igreja a entenderem como é a vida de um santo-pecador – como todos nós precisamos da graça de Deus o tempo todo.

5. Por último, precisamos aprender a celebrar os avanços do evangelho como uma família. Não são muitas as igrejas, na minha experiência, que sabem como festejar juntos, especialmente quando se trata de celebrar histórias de recuperação, renovação e restauração. O filho mais novo estava pronto para fazer penitência quando chegou em casa, mas a primeira coisa que o pai quis que o seu filho fizesse foi dançar. A disciplina da igreja é a correção paternal e a restauração, não a punição e provação. Sem dúvida, houve algumas longas “caminhadas e conversas” sobre as escolhas pecaminosas do filho pródigo, mas a restauração acontece melhor no jardim da graça, não no cantinho da vergonha. A bondade de Deus sempre nos tira da penitência e nos leva ao arrependimento.


Autor: Scotty Smith

Rev. Scotty Smith é o pastor fundador da Christ Community Church em Franklin, Tennessee, e é autor de Everyday Prayers: 365 Days to a Gospel-Centered Faith.

Parceiro: Ministério Ligonier

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Ministério do pastor R.C. Sproul que procura apresentar a verdade das Escrituras, através diversos recursos multimídia.

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Ministério Fiel: Apoiando a Igreja de Deus.

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