sexta-feira, 5 de junho

Até que ponto devemos obedecer às autoridades?

Episódo do podcast John Piper Responde

Transcrição de áudio

Você já se perguntou quando a obediência se torna transgressão? Existe um limite que todos nós encontraremos em algum momento. Os ensinamentos bíblicos sobre autoridade e liberdade explicam onde esse limite se encontra. Como honrar as pessoas sem trair a Deus? 

A pergunta vem de um jovem que está estudando 2 Coríntios. Nosso jovem escreve: “Pastor John, moro na Índia com meus pais, que insistem muito para que eu me case com uma mulher não cristã por razões culturais, mas sou um cristão convicto. 2 Coríntios 6.14 diz: ‘Não se ponham em jugo desigual com descrentes’. Como posso honrar meus pais sem comprometer minha fé? Se eu me recusar, eles ameaçam me deserdar. Existe algum ponto em que a obediência aos pais faz com que eu me torne cúmplice da idolatria deles? O que devo fazer se a vontade de Deus entrar em conflito com as tradições da minha cultura? Presumo que haja exemplos disso acontecendo na Bíblia. Como sei quando a obediência seria pecado?”

Sim, existem exemplos na Bíblia em que honrar a autoridade legítima e honrar a Deus entram em conflito. Mas antes de mencionar qualquer um deles, é muito importante que nos lembremos da estrutura bíblica que define quem somos como cristãos neste mundo caído e como nos relacionamos com as estruturas sociais do mundo, como a família, a criação dos filhos ou o Estado.

Viajantes e exilados

Primeiramente, somos fundamentalmente novas criaturas, uma nova criação (Gálatas 6.15). Fomos libertados do domínio das trevas e transferidos para o reino do Filho amado de Deus (Colossenses 1.13), o que significa que neste mundo — seja na Índia ou nos Estados Unidos — somos “peregrinos e exilados” (1 Pedro 2.11). Este mundo e suas estruturas não são nosso lar principal, nem nossa principal lealdade.

Então, a questão é: como nos relacionamos com as estruturas deste mundo caído e pecaminoso — como a família, o Estado, as estruturas empresariais ou as estruturas da igreja? A resposta fundamental do Novo Testamento é que somos chamados a viver no mundo, mas não ser do mundo (João 17.14-16). Isso inclui a postura de submissão a toda autoridade legítima: família, igreja, trabalho, Estado (1 Pedro 2.13-3.7 ; Colossenses 3.18-4.1; Efésios 5.22-6.9). Devemos honrar nossos pais (Efésios 6.2), honrar nossos pastores (1 Tessalonicenses 5.12), honrar as viúvas (1 Timóteo 5.3) e honrar o rei (1 Pedro 2.17).

De fato, de acordo com esse mesmo versículo, 1 Pedro 2.17, devemos honrar a todos os homens. A palavra é simplesmente “todos os homens”, o que claramente implica que existem diferentes tipos de honra que devemos prestar a diferentes tipos de pessoas ou a diferentes papéis desempenhados por pessoas em diferentes esferas da vida. Não se honra um estuprador e um rei justo da mesma maneira. Honra-se o rei com respeito e deferência. Honra-se o estuprador com um julgamento justo, em vez de fuzilá-lo como um cão sem direito ao devido processo legal. Ele não é um cão.

E então surge esta questão: existem limites para essa honra e essa deferência aos outros, especialmente à autoridade, como os pais e o Estado? E a resposta já está implícita, creio eu, em nossa identidade como exilados.

Pedro declara a realidade fundamental desta forma, logo após dizer que devemos nos submeter a toda instituição humana (1 Pedro 2.13). Ele diz em 1 Pedro 2.16: “Vivam como pessoas livres”. Oh, isso é poderoso. Livres, o que significa que não nos submetemos a estruturas terrenas como pais e o Estado porque elas têm autoridade intrínseca sobre nós. Elas não têm autoridade intrínseca. Não, é porque Deus tem autoridade, e por causa da autoridade intrínseca de Deus. Ele não a toma emprestada de ninguém. Ela está nele. Por causa da autoridade de Deus, ele nos enviou de volta a essas estruturas como exilados e peregrinos, governados pela sua vontade e para a glória dele: “Façam o bem”. Ele quer ser glorificado por meio de nossas boas ações nessas estruturas, de acordo com 1 Pedro 2.15.

Então, a resposta é sim, existem limites para a autoridade deste mundo, e o limite é a vontade revelada de Deus, a Palavra de Deus. Em outras palavras, não devemos seguir as estruturas de autoridade deste mundo para pecar. Essa é a estrutura básica da vida cristã, como eu a vejo, no Novo Testamento.

Realidade do Reino

E agora estamos prontos para alguns exemplos bíblicos do conflito que surge entre a autoridade humana e a autoridade divina. Em Atos 4.18, o Sinédrio, sede do governo judaico em Jerusalém, diz aos apóstolos: “Não falarão nem ensinarão mais em nome de Jesus”. E a isso, Pedro e João respondem: “Decidam vocês mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer a vocês em vez de a Deus, pois não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos” (Atos 4.19-20). Em outras palavras, quando a autoridade humana contradiz a Palavra de Deus, os cristãos seguem a autoridade superior — ou seja, a Palavra de Deus.

O mesmo se aplica à forma como devemos honrar nossos pais. Existem, de fato, tipos especiais de respeito, estima e deferência que devemos sempre demonstrar aos nossos pais, mesmo àqueles que são cruéis, infiéis, negligentes e abusivos. E a razão pela qual digo que existem tipos especiais, no plural, é que esse respeito se manifestará de forma diferente, não será o mesmo, para um pai piedoso, humilde e prestativo e para um pai ímpio, orgulhoso e prejudicial. Haverá um tipo de respeito, mas não será o mesmo. O respeito e a honra que demonstramos, mesmo aos melhores pais, não incluem submeter-nos à sua vontade se essa vontade nos levar à desobediência a Deus.

Gideão derrubou o altar de Baal que seu pai acabara de construir (Juízes 6.25). Jônatas se opôs repetidamente à vontade de seu pai Saul para defender e proteger Davi das intenções injustas e assassinas de seu pai (1 Samuel 20.13). Ezequias foi um rei bom e justo, ao contrário de seu pai, Acaz, que era praticamente um dos piores. Ezequias removeu os altares idólatras, derrubou as colunas sagradas e destruiu o altar de Aserá, que seu pai tanto amava (2 Reis 18.4).

Jesus disse: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mateus 10.37). E em Lucas, é ainda mais enfático: “Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14.26). Isso não significa que devemos nutrir um ódio malicioso por nossos pais. Significa que, muitas vezes, precisamos fazer escolhas que o mundo, e até mesmo nossos pais, não entenderão, porque somos motivados por Cristo, e eles não entendem Cristo. Eles não entenderão, e podem até chamar isso de ódio, porque nossas ações são tão contrárias às relações humanas comuns que eles esperam. Eles simplesmente não entendem as realidades do Reino, as prioridades do Reino.

Calcule o custo

Isso nos leva agora à questão central de um cristão se casar com um descrente simplesmente porque é o que os pais querem. Paulo disse em 1 Coríntios 7.39 que uma viúva cristã “é livre para casar-se com quem quiser, contanto que seja no Senhor”. Isso significa que o casamento deve ser somente com um cristão: com alguém que está “no Senhor”. E ele diz em 2 Coríntios 6.14: “Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois que sociedade pode haver entre a justiça e a injustiça? Ou que comunhão entre a luz e as trevas?”. Portanto, creio que a resposta é que você deve avaliar as consequências e seguir a vontade de Deus, não se casando com um descrente.

Mas permitam-me concluir com isto. Na minha experiência pastoral, quando enfrentamos conflitos como este (e é bastante comum), tenho incentivado os jovens a orarem fervorosamente para que o Deus que divide o Mar Vermelho, faz o sol parar no céu, ressuscita os mortos, faz surgir do nada coisas que existem, cria novas possibilidades onde nenhuma parece existir, que este Deus — a este Deus que oramos — crie de fato um caminho possível que ninguém consegue enxergar no momento, que permita que o relacionamento seja preservado e que Deus seja obedecido.


Por: John Piper. © Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: When Obedience Is Evil | Revisão e edição por Vinicius Lima.


Autor: John Piper

John Piper é um dos ministros e autores cristãos mais proeminentes e atuantes dos dias atuais, atingindo com suas publicações e mensagens milhões de pessoas em todo o mundo. Ele exerce seu ministério pastoral na Bethlehem Baptist Church, em Minneapolis, MN, nos EUA desde 1980.

Parceiro: Desiring God

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Ministério de ensino de John Piper que, há mais de 30 anos, supre ao corpo de Cristo com livros, sermões, artigos.

Ministério: Ministério Fiel

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Ministério Fiel: Apoiando a Igreja de Deus.

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