quarta-feira, 17 de junho

A principal causa do fracasso ministerial

A necessidade da influência divina

Resumo: Charles Bridges argumenta que a principal causa da esterilidade ministerial não está na falta de métodos, eloquência ou esforço, mas na privação da influência divina. Com base nas Escrituras e na experiência pastoral, ele demonstra que somente o Espírito Santo pode vivificar corações mortos, tornar eficaz a pregação do evangelho e produzir frutos duradouros no ministério cristão.


A garantia bíblica nos leva a ter grandes expectativas com relação aos trabalhos do ministério cristão. No entanto, em todas as esferas de trabalho, essas perspectivas radiantes são mais ou menos obscurecidas, como se um temperamento otimista tivesse aumentado indevidamente nossas expectativas. Conforme observamos recentemente, às vezes, muito cultivo se faz no solo, mas se observa pouco sucesso proporcional. Os mesmos meios e instrumentos que antes produziam benefícios importantes, falham em seus efeitos habituais. Ora, quem cultivaria suas terras a um custo considerável e frustrante, sem investigar as causas do fracasso de suas justas expectativas? Devemos, portanto, nos perguntar: o que está faltando para dar efeito a essa ordem de meios, cujo poder tem sido frequentemente exibido e que sabemos estar constituído no propósito de Deus para a renovação do mundo? O Sr. Cecil observou: “Há uma manifesta falta de influência espiritual no ministério dos dias atuais. Sinto isso em meu próprio caso e vejo isso em outros colegas de ministério.”[i] Esta observação explica suficientemente os sintomas da esterilidade prevalente entre nós. Pois tal como as influências do céu são necessárias para fertilizar o solo e promover a vegetação, assim também a influência celestial é necessária para dar poder vivificador à palavra. Portanto, aramos e semeamos em vão, se o Senhor ordenar às nuvens que não derramem chuva[ii] sobre o campo da agricultura espiritual.

Voltemo-nos para o testemunho da Escritura. À falta de influência divina é atribuída a falta de efeito produzida pela primeira promulgação da vontade de Deus (confirmada como foi por sinais e maravilhas), em conjunto com a descrença de Israel testemunhada pelos profetas, e até mesmo no ministério do Filho de Deus.[iii] Nosso Senhor afirma claramente a necessidade da influência divina para que se possa ir até ele[iv] e permanecer nele.[v] A falta dessa influência tornou seu ministério público comparativamente ineficaz. Embora sua doutrina fosse de Deus, embora seu caráter fosse perfeito e embora milagres diários atestassem sua missão, ainda assim, segundo as aparências superficiais imediatas, pouco parece ter sido feito. Por outro lado, Pedro, um pobre pescador, quando dotado desse poder onipotente da influência divina, é tornado mais eficaz como o instrumento de conversão, por meio de um único sermão, do que provavelmente seu mestre, em todo o seu ministério terreno.[vi] Os outros apóstolos pregaram em instâncias coletivas e individuais, com a mesma “demonstração do Espírito e de poder”.[vii] Em Antioquia, “a mão do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor”.[viii] Lídia “atendeu às coisas que Paulo dizia” não porque Paulo fosse pregador eloquente, ou porque ela era ouvinte atenta (embora somente nessa disposição a bênção se possa esperar), mas porque “o Senhor lhe abriu o coração”.[ix] Assim, o teor uniforme dos registros sagrados marca o poder do Espírito como o selo e confirmação da palavra, e como a influência vivificante difundida por toda a igreja, desde o tempo em que a primeira pedra viva foi lançada sobre o fundamento de Deus. Portanto, a privação ou retenção dessa bênção deve, necessariamente, ser acompanhada de sintomas dolorosos proporcionais de ineficiência ministerial.

As circunstâncias nas quais trabalhamos confirma essa visão do assunto. Admitindo as declarações bíblicas da condição natural do homem — “mortos nos vossos delitos e pecados”, “obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração”, sua mente sendo o próprio princípio de inimizade para com a verdade, mesmo sob sua forma mais atraente, e seu coração de pedra insensível às bênçãos divinas —,[x] quão palpável é a necessidade de poder do alto! “Pode um discurso, por mais bem composto que seja”, pergunta Charnock:

[…] expondo todas as vantagens da vida e da saúde, ressuscitar um homem morto ou curar um corpo doente? Podes também exortar um cego a contemplar o sol e prevalecer da mesma forma. Ninguém jamais imaginou que espalhar flores em um cadáver o faria reviver. De igual modo, uma exortação espiritual, por mais eloquente que seja, não é capaz de, por si só, incitar o homem espiritualmente morto, fazê-lo abrir os olhos e se pôr de pé. A operação de um grande poder é título alto demais para a capacidade de meras exortações morais. A mera persuasão não confere força, mas pressupõe que ela já exista no homem, pois os homens só podem ser persuadidos a usar os poderes que já possuem.[xi]

As instruções mais claras podem equipar e aumentar o entendimento, mas não têm poder para influenciar a vontade — exceto para o que é adequado

e conatural com suas sugestões e hábitos nativos. Portanto, sempre que o evangelho influencia o coração com sucesso, isso acontece “não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos”.[xii]

E a observação e a experiência não acrescentam ainda mais confirmação a esse assunto? Não conhecemos ministros consumados e devotados que são menos honrados em seu trabalho do que outros de seus irmãos de qualificações muito inferiores? E não encontramos diferenças de efeito sob o mesmo ministério, e mesmo sob os mesmos sermões, que só podem ser explicados pela dispensação soberana da influência divina? A experiência pessoal não nos mostrou que os mesmos motivos operam no mesmo serviço com medidas de influência muito diferentes? E não percebemos a mesma diferença em nossa experiência ministerial — em nossa obra pastoral, bem como em nossa obra no púlpito — que, às vezes, uma única frase é revestida de poder Todo-Poderoso e, outras vezes, é apenas a respiração débil de um verme? “Tu nunca”, Charnock pergunta novamente, com sua concisão característica:

[…] argumentaste com algum sujeito profano e libertino, com tamanha insistência que ele pareceu ter sido sacudido de suas desculpas por sua conduta pecaminosa, mas não sacudido de seu pecado, de modo que pareceu que poderias tão logo persuadir a maré em pleno mar a recuar, ou o leão a mudar de natureza, como o vencendo por todos os seus argumentos? De modo que não é a respiração débil do homem ou a consideração racional da mente que são capazes de realizar esta obra, mas sim as intervenções soberanas e as operações poderosas daquele grande Paráclito ou Advogado, o Espírito, que transformam o templo da alma.[xiii]

Esta, então, é a principal fonte de sucesso ministerial. “Até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto”,[xiv] o deserto, apesar do cultivo mais diligente, ainda permanecerá um deserto.

Mas por que essa bênção[xv] prometida é retida? “Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.”[xvi] No entanto, não devemos cochilar em aquiescência sem autoindagação. Será que buscamos e apreciamos fervorosamente essa influência e intervenção divina? Será que ativamente “reavivamos o dom de Deus que há em nós”?[xvii] Acima de tudo, nosso púlpito apresenta aquela exibição plena de nosso divino mestre, o único que comanda esta bênção celestial?[xviii] O encorajamento da oração e da fé são sempre os mesmos. Deus é, de fato, absolutamente soberano na distribuição de sua bênção, mas, com sua ordem de buscar, ele se comprometeu a não permitir que seu povo busque em vão. Tendo prometido livremente, ele cumprirá fielmente. Que todos os meios sejam usados com diligência, mas em dependência; na abnegação, mas na renúncia de si mesmo. Não sejam os ministros indevidamente exaltados entre seu povo. Somos apenas instrumentos “por meio de quem crestes”,[xix] e a dependência e exaltação indevida de nosso trabalho pode provocar o grande Agente — o qual não dá a sua glória a outrem[xx] — a tornar estéril mesmo o ministério mais eficaz, para que esses idólatras saibam que não somos nada mais do que “meros homens”.[xxi] Podemos ser levados a perguntar: “Onde está o Senhor, Deus de Elias”,[xxii] aquele que pode realizar muito mais por uma tímida frase do instrumento mais fraco, do que podemos nós, em nós mesmos, pela pregação mais poderosa?


O texto acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Fracasso pastoral, de Charles Bridgs, publicado pela Editora Fiel.


[i] Richard Cecil, Remains of the Rev. Richard Cecil. With a view of his character, remarks on authors, miscellanies, rules for a young minister, etc. (Londres: A. Simpson, 1840).

[ii] Isaías 5.6.

[iii] Veja Deuteronômio 29.4-5; Isaías 53.1; João 12.39-40.

[iv] Veja João 6.44-65.

[v] João 15.1-5.

[vi] Atos 2. Veja isso explicado em João 7.39; e, de fato, prometido em João 14.12. “Certa vez, disse a mim mesmo, na tolice do meu coração: ‘Que sermão deve ter sido aquele que foi pregado por São Pedro, quando três mil almas foram convertidas de uma vez!’ Que sermão? Como todos os outros sermões. Não há nada de extraordinário no sermão em si. O efeito não foi produzido por sua eloquência, mas pelo grande poder de Deus presente com sua palavra. É em vão atender um ministro após o outro e fazer sermão após sermão, a menos que oremos para que o Espírito Santo possa acompanhar sua palavra e operar através dela.” —Richard Cecil, Remains of the Rev. Richard Cecil. With a view of his character, remarks on authors, miscellanies, rules for a young minister, etc. (Londres: A. Simpson, 1840). Quem não se unirá a um velho escritor piedoso no desejo ardente de outro Pentecostes? “Oh! Quem dera, nestes péssimos e últimos tempos, como pelo orvalho da noite (e da manhã) os pomares secos da Igreja de Cristo fossem irrigados e fertilizados!” — Thomas Hall, Sal terrae.

[vii] 1 Coríntios 2.4.

[viii] Atos 11.21.

[ix] Atos 16.14.

[x] Compare Efésios 2.1, 4.18; Atos 29.18; Romanos 8.7; João 3.19-20.

[xi] Charnock sobre a regeneração, Works, vol. 2, p. 200 [Stephen Charnock, 7e Works of Stephen Charnock (Edimburgo: Banner of Truth, 2010)].

[xii] Zacarias 4.6.

[xiii] Charnock sobre a regeneração, Works, vol. 2, p. 201. “Ai!”, exclama o Sr. Howe, “o que faria a pregação, se pudéssemos supor que nunca fosse tão geral, enquanto o Espírito do Deus vivo restringe e retém suas influências! Podemos também tentar golpear paredes fortes com o sopro de nossas bocas, como fazer o bem às almas dos homens sem o Espírito de Deus”. —Sermão 14 sobre a Obra do Espírito na Igreja, Works, p. 356. “É necessário que o Espírito Santo opere internamente, para que surta algum efeito o remédio que é aplicado externamente; a menos que ele se faça presente no coração do ouvinte, o sermão do orador não tem nenhum proveito.” — Agostinho.

[xiv] Isaías 32.15. “Na pregação”, disse o Sr. Cecil, “não possuo qualquer incentivo além da crença de uma operação divina contínua. Levar um homem a amar a Deus, a amar a lei de Deus, enquanto esta o condena, a reconhecer a sua indignidade diante de Deus, a trilhar na terra debaixo dos seus pés, a ter fome e sede de Deus em Cristo — com o homem isso é impossível. Mas Deus disse — assim será, e ele me manda sair e pregar, para que por mim, como seu instrumento, ele possa realizar esses grandes fins: e, portanto, eu vou”. — Remains.

[xv] Compare Isaías 44.3-5, Joel 2.28.

[xvi] Mateus 11.26.

[xvii] 2 Timóteo 1.6.

[xviii] João 16.45 com Atos 2.36-37, 10.43-44.

[xix] 1 Coríntios 3.5-7.

[xx] Isaías 42.8.

[xxi] Salmos 9.20.

[xxii] 2 Reis 2.14.


Autor: Charles Bridges

Charles Bridges (1794-1869) foi pregador e teólogo da Church of England e líder do Partido Evangélico daquela denominação. Ficou reconhecido como pregador por seus contemporâneos, mas é lembrado, hoje, por suas contribuições literárias. Formado no Queens College, Cambridge, foi ordenado em 1817 e serviu como pastor da Old Newton, Suffolk de 1823 a 1849. Bridges participou juntamente com J.C. Ryle da Conferência Clerical de 1858, em Weston-super-Mare, e em 1860, da consagração do bispo de Carlisle em York Minster. Foi casado com Harriet Torlesse, com quem teve dois filhos, um deles o médico John Henry Bridges.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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