sexta-feira, 12 de junho

O gênero e a estrutura literária de Salmos

Este artigo faz parte da série Gênero e Características literárias dos livros da Bíblia, que são artigos retirados e adaptados com permissão da Bíblia de Estudo da Fé Reformada, Editora Fiel.


O conhecimento do gênero literário de um livro bíblico visa conduzir o leitor ao melhor entendimento das Escrituras, já que a Palavra de Deus é inspirada e que o próprio Deus planejou a escrita de cada gênero para um determinado fim. Esperamos que o conhecer o gênero e a estrutura literária de cada livro ofereça ao leitor uma leitura e estudo bíblico mais profundo e proveitoso.

Gênero

A consideração mais ampla do gênero é que o livro dos Salmos é poesia, e não prosa. Para discussão adicional acerca da natureza poética dos Salmos, ver Introdução à Poesia Hebraica. 

As características distintivas permitem que os salmos individuais sejam associados a determinadas categorias literárias para o propósito de estudo. Essas categorias não devem ser vistas como mutuamente exclusivas, mas, sim, como perspectivas que possibilitam conhecer melhor os diversos salmos. A seguir, elencam-se as categorias literárias comumente usadas no livro dos Salmos.

1. Hinos. Os hinos foram compostos para épocas em que tudo está bem. Os hinos são facilmente reconhecidos por seu louvor exuberante ao Senhor e, em geral, o louvam por ele ser o Criador (p. ex., Sl 104) e o Redentor (p. ex., Sl 105). Em geral, os hinos contêm três seções: convocação a se louvar a Deus, louvor propriamente dito e uma afirmação conclusiva de fé ou convocação reiterada ao louvor. O Salmo 103 é um bom exemplo dessa estrutura: a chamada para louvar (vv. 1, 2), o louvor propriamente dito (vv. 3-19) e a chamada para louvar (vv. 20-22). Para outros exemplos de hinos, ver Salmos 8; 19; 29; 33; 65; 67; 68; 93; 96; 96; 98; 100; 111; 113; 114; 117; 135; 145; 146; 147; 148; 149; 150.

2. Lamentos. Os lamentos foram compostos para os momentos em que tudo estivesse mal, expressando, assim, emoções vivenciadas em tempos de grande dor ou perda. Em um lamento, o salmista abre seu coração francamente a Deus, um coração saturado de pesar, solidão, perplexidade, tristeza, abandono, medo ou ira. Com poucas exceções (Sl 44; 88), os lamentos se voltam para o Senhor com confiança até o fim. Em geral, os lamentos contêm duas seções: a súplica por socorro, seguida de confiança ou louvor. O Salmo 6 constitui um excelente exemplo disso: súplica por socorro (vv. 1-7) e confiança de que seria libertado (vv. 8, 9). Para outros exemplos, ver Salmos 3; 5; 7; 13; 17; 22; 25; 26; 27; 28; 38; 39; 42; 43; 51; 54; 55; 56; 57; 59; 61; 63; 64; 69; 70; 71; 74; 79; 80; 83; 86; 89; 102; 109; 120; 130; 140; 141; 142; 143.

3. Salmos de ação de graças. Os Salmos de ação de graças se assemelham a hinos, na medida em que focam o louvor de Deus. A diferença é que os hinos enfatizam o que Deus tem feito em um passado remoto, na criação ou na história redentora, enquanto os salmos de ação de graças destacam o que Deus tem feito na história recente e pessoal do salmista. Em particular, os salmos de ação de graças foram escritos para celebrar os momentos em que o Senhor respondeu a uma oração de lamento. Assim como os hinos, os salmos de ação de graças têm, em geral, três seções: a intenção inaugural de dar graças; a lembrança de uma tribulação (com frequência, refletindo a estrutura e a linguagem do lamento); e uma renovação conclusiva de ação de graças. É bem provável que o Salmo 116 seja o exemplo mais pessoal: ação de graças e louvor (vv. 1-3); lembrança da tribulação (vv. 3-11); e ação de graças e louvor (vv. 12-19). Para outros exemplos, ver Salmos 18; 30; 34; 40; 41; 66; 92; 118; 124; 138.

4. Salmos de confiança (ou certeza). Entre os salmos de lamento e ação de graças, encontram-se os salmos de confiança. Tipicamente, nesses salmos há algum tipo de dificuldade em vista, porém a angústia não é tão intensa quanto a dos lamentos, e o salmista ainda não está totalmente livre da dificuldade. O tom dominante desses salmos é a confiança de que o Senhor libertará o salmista. Diferentes dos três primeiros gêneros, os salmos de confiança, aparentemente, não têm uma estrutura em comum. Para alguns exemplos, ver Salmos 16; 23; 27; 62; 73; 91; 115; 121; 125; 131.

5. Salmos de realeza. Visto que Deus, o Rei do universo, é o tema de muitos salmos, e visto que Davi, o rei humano, é o assunto de muitos outros salmos, a realeza é um conceito importante no Saltério (ver Características e Temas Principais). Entretanto, alguns poucos salmos focam tão intensamente a realeza divina (Sl 47) ou a realeza humana (Sl 45) que se sobressaem como um gênero à parte. Por ausência de uma estrutura formal, os salmos de realeza são unidos por temas como criação, redenção, juízo, supremacia sobre os ídolos e cuidado universal. Para exemplos de salmos de realeza divina, ver Salmos 24; 29; 47; 48; 93; 95; 96; 97; 98; 99; 145; e, para exemplos de realeza humana, ver Salmos 2; 20; 21; 45; 61; 63; 72.

6. Salmos de sabedoria. Alguns salmos se enquadram no mundo de Provérbios, Jó e Eclesiastes. Há certa linguagem que esses salmos partilham com outros livros de sabedoria: pronunciamentos de bênção, ditos numéricos, ditos “de superação”, estrutura alfabética e admoestações. Os salmos de sabedoria também recorrem aos temas encontrados na literatura sapiencial: o caminho do justo e o caminho do ímpio, o contraste entre o sábio e o tolo, conselhos práticos, retribuição e temor do Senhor. A convergência entre linguagem de sabedoria e temas de sabedoria é suficiente para situar certos salmos nessa categoria. Para alguns exemplos, ver Salmos 1; 19; 32; 34; 37; 49; 73; 112; 119; 128.

Características literárias

Os salmos estão distribuídos em cinco livros. O final de cada livro é marcado por doxologia (Sl 1–41; 42–72; 73–89; 90–106; 107–150). A tradição judaica mantém que o número cinco foi escolhido para que se equiparasse aos cinco livros de Moisés, e com certeza esse é o caso. Ambos, os cinco livros de Moisés e os cinco livros dos Salmos, constituem a torá (instrução) do Senhor (Sl 1.2).

O Livro 1 começa com a inauguração da aliança davídica (Sl 2) e termina com as promessas do Salmo 2 chegando à sua concretização (Sl 41). O Livro 2 termina com a aliança da realeza sendo transferida para Salomão (Sl 72), que é um tipo do homem bem-aventurado do Salmo 1 (ver a imagem em Sl 72.5-7) e um tipo do Rei messiânico do Salmo 2 (ver a linguagem em Sl 72.8-11). Em seguida, o Livro 3 termina com uma nota assustadora. O primeiro salmo da seção se queixa de que o justo sofre. O último salmo, por sua vez, lamenta o fato de, aparentemente, a aliança davídica haver fracassado, com o rei coroado rolando no pó (Sl 89). O Salmo 88 é o único salmo sem louvor. Os demais livros respondem à indagação que pulsa no coração e na mente da comunidade pós-exílica: “Como viveremos na ausência do rei davídico?”. O Livro 4 responde que vivemos pela fé na verdade de que o Senhor ainda é o Rei, a despeito das evidências contrárias. Dentro desse livro, os Salmos 93–99, chamados “salmos de entronização”, visualizam o reinado de Deus sobre a terra. O Livro 5 responde que vivemos com uma obediência (Sl 119) focada no verdadeiro culto de Deus (Sl 145–150). Ele começa dando graças a Deus por trazer Israel de volta do exílio, incluindo os salmos que tomam Davi como modelo de piedade (138–145), bem como os salmos que predizem o reinado do Messias (110).


Autor: Editorial online do Ministério Fiel

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