Transcrição de áudio
Provavelmente todos nós conhecemos alguém que se recusa completamente a nos ouvir quando falamos sobre Deus, sobre o pecado, sobre Cristo, sua cruz e como estar em paz com Deus. Hoje vamos falar sobre pessoas que parecem conhecer tanta coisa, serem tão inteligentes, mas mesmo assim continuam rejeitando Deus e sua salvação em Cristo. A pergunta vem de Chloe, de Londres: “Pastor John, se em Romanos 1.19-20 vemos que a existência de Deus é claramente revelada através da criação, por que tantas pessoas, incluindo talvez nós mesmos, ainda sentem que Deus está em silêncio ou oculto? Por que Deus não nos dá um sinal mais pessoal e inconfundível? Será que o problema não reside na clareza de Deus, mas na nossa capacidade ou vontade de ver? Como o pecado, a distração ou a cegueira espiritual afetam a nossa percepção da auto revelação de Deus?”
Todos conhecem a Deus.
As palavras de Paulo em Romanos 1.19-20 são realmente surpreendentes. Ele está falando sobre todos os seres humanos e explicando por que todo ser humano no planeta é culpado e indesculpável diante de Deus, mesmo aqueles que nunca ouviram o evangelho. Ele diz:
Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis. (Romanos 1.19-21)
O que é surpreendente é que ele diz que todos conhecem a Deus — não apenas que todos poderiam conhecer a Deus, mas que todos de fato o conhecem. E em Romanos 2.15, ele diz que a lei de Deus está escrita no coração de cada ser humano. E em Romanos 1.32, ele diz que as pessoas sabem que os pecados que cometem merecem a morte. Então, Paulo está fazendo essa afirmação surpreendente de que toda pessoa que você encontra na rua conhece a Deus, sabe que existe o certo e o errado e sabe que está falhando em cumprir a vontade de Deus. Isso é simplesmente incrível. Que ponto de partida para a evangelização!
Por um lado, essa é uma realidade terrível, pois algo aconteceu que submergiu todo esse conhecimento no subconsciente. Mas, por outro lado, é esperançoso, porque algo que dizemos ou fazemos pode ser usado por Deus para acessar a consciência profunda e oculta de uma pessoa em relação a Deus.
Então, a questão é: o que aconteceu para enterrar todo esse conhecimento, impedindo que ele frutifique? A principal resposta do Novo Testamento é que todos nós — exceto pela obra iluminadora do Espírito Santo e pelo novo nascimento — suprimimos a verdade que possuímos. Mencionarei cinco maneiras pelas quais a verdade é suprimida por causa do que está dentro de nós e duas outras maneiras pelas quais ela é suprimida por fatores externos.
Cinco supressores da verdade interna
A afirmação mais básica está aqui em Romanos 1.18, vamos ler na NAA: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos seres humanos que, por meio da sua injustiça, suprimem a verdade”. Portanto, a afirmação mais básica é que os seres humanos suprimem a verdade. Em um sentido profundo, conhecemos a Deus e não o conhecemos. Encontramos maneiras de simplesmente suprimir o conhecimento de Deus em nossas almas, de modo que esse conhecimento se torna praticamente inútil.
Segundo Paulo, a primeira causa dessa supressão é a injustiça. Eles “suprimem a verdade” em “sua injustiça”. Portanto, a ignorância não é o nosso primeiro problema. Nosso primeiro problema é moral. O que isso significa? O que significa suprimir a verdade na injustiça, na imoralidade?
Creio que Paulo ilumina ou explica em Efésios 4.18 o que está por trás da ignorância — isto é, a aparente falta de conhecimento que realmente existe ali. Eis o que ele diz em Efésios 4.18: “Eles estão obscurecidos no entendimento e separados da vida de Deus pela ignorância que neles há” — e, em seguida, acrescenta: “por causa da dureza do seu coração”. Portanto, a raiz da nossa ignorância prática de Deus é a dureza do coração. A supressão é causada pela dureza do coração.
Mas o que isso significa? A que se refere essa imagem de dureza? Creio que Paulo esclarece em Romanos 8.7 da seguinte forma: “A mentalidade da carne” — ora, esse é o coração humano (ou a alma humana, ou a mente humana) separado de Deus, de sua obra e de sua graça, apenas a mente natural. “A mentalidade da carne é inimiga de Deus” — aqui está a palavra-chave: inimiga , inimiga. “Pois não se submete à lei de Deus” — esse é o resultado da hostilidade: é insubordinada; resiste à autoridade de Deus — “de fato, não pode”. É assim que é ruim. Não se trata de uma impossibilidade física. Trata-se de uma impossibilidade de “não quero isso” . Trata-se de uma impossibilidade moral. “Os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Romanos 8.8).
Portanto, por trás da nossa ignorância prática quanto a Deus, reside a hostilidade a Ele e a nossa profunda resistência de nos submter à Sua vontade. Em outras palavras, a injustiça e a dureza do nosso coração que suprimem o conhecimento de Deus residem no nosso desejo de sermos o nosso próprio Deus. Essa é a nossa profunda dureza. Não queremos nada acima de nós. Não queremos nada que tenha autoridade sobre nós. Queremos definir por nós mesmos o que é verdadeiro, bom e belo. Assim, esse conhecimento de Deus que jaz enterrado nas profundezas da nossa alma é profundamente ofensivo. Não podemos deixá-lo emergir. É muito ofensivo para nós. Ele desperta uma resistência hostil, e a principal maneira de lidar com esse conhecimento é suprimi-lo. Você diz: “Não, ele não existe. Realmente não existe.” É isso que a supressão faz.
Jesus falou sobre isso com as seguintes palavras; ele falou em termos de amor e ódio pela luz e pelas trevas em João 3.19-20: “Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, e os homens amaram as trevas”. Essa era a condição deles — a nossa condição — quando Cristo veio ao mundo. Nós “amamos mais as trevas do que a luz, porque as nossas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam expostas”. É uma questão moral, não uma questão de saber ou não sobre a existência de Deus.
Dois supressores externos da verdade
Nosso problema não é a falta de luz, mas sim o ódio que sentimos por ela, o que nos torna presas fáceis para o deus desta escuridão presente, Satanás. Satanás é a primeira de duas realidades externas que se unem à nossa injustiça interior para suprimir o conhecimento de Deus. E eu entendo isso por meio de 2 Coríntios 4.4: “O deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus”. Portanto, Satanás se une à injustiça humana para nos manter nas trevas.
A segunda força externa que suprime a verdade é que nós e Satanás, juntos, criamos etiologias e visões de mundo inteiras que são contrárias a Deus. Paulo descreve isso assim em 2 Coríntios 10.4-5: “As armas da nossa guerra não são carnais, mas poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus.”
Deus tira a cegueira
Portanto, (1) injustiça, (2) dureza de coração, (3) hostilidade a Deus, (4) insubordinação, (5) amor às trevas — essas são as coisas internas que suprimem a verdade. E elas se unem às supressões externas que são (1) os efeitos cegantes de Satanás e (2) as fortalezas ideológicas na cultura humana.
O resultado é que o conhecimento de Deus que reside em cada coração humano fica suprimido, até que o evangelho seja proclamado. Deus diz: “Haja luz” (ver 2 Coríntios 4.6). É assim que oramos. Oramos pelo mundo, pelos povos não alcançados, pela nossa igreja, pela nossa família, pelos nossos vizinhos. Deus faz com que as pessoas nasçam de novo “pela palavra viva e permanente” (1 Pedro 1.23). Portanto, nunca devemos dizer: “Bem, não fale, porque as pessoas são surdas e cegas”. Não, devemos dizer: “Fale sempre, porque é assim que Deus remove a cegueira”.
Por: John Piper. © Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: Why Smart People Reject God | Revisão e edição por Vinicius Lima.
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