Este artigo faz parte da série Versículos-chave
Todas as seções de comentários adaptadas da Bíblia de Estudo da Fé Reformada com Concordância, Editora Fiel.
Introdução
A onisciência de Deus é um dos atributos mais consoladores e solenes revelados nas Escrituras. Do início ao fim da Bíblia, Deus se apresenta como aquele que conhece perfeitamente todas as coisas: nossos pensamentos, palavras, ações, circunstâncias e até mesmo os eventos antes que aconteçam. Seu conhecimento não é limitado pelo tempo, pelo espaço ou pela capacidade humana de compreensão. Os versículos reunidos neste artigo mostram que o Senhor sonda os corações, governa a história, conhece seus filhos desde a eternidade e vê toda a criação com perfeita clareza.
1. Salmo 139.1–6
Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, Senhor, já a conheces toda. Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir.
O salmo 139 é oração de uma pessoa que invoca a Deus, anunciando que é inocente de todas as acusações. Com esse propósito em mente, ele medita sobre o caráter de Deus, explorando a sabedoria de Deus, sua onipresença e sua grandeza como o Criador.
O conhecimento de Deus é abordado do versículo 1 ao 6.
Ele é o Deus de conhecimento absoluto – tu me sondas e me conheces –, que compreende intimamente o salmista, bem como toda a sua criação (Cf. o apelo nos vv. 23 e 24).
Deus é onisciente – penetras os meus pensamentos. Os pensamentos podem ser as áreas mais privadas da vida, porém não podem ser escondidos do Senhor (1Cr 28.9; Jr 17.10; Jo 2.25).
Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar – literalmente, “Tu tens medido minha
trajetória e meu deitar [descansar]”. Esse é um merismo para a totalidade do conhecimento de Deus. Ver nota em 49.2.
Ainda a palavra me não chegou à língua – tem o sentido de que Deus conhecia o pensamento de Davi antes que ele fosse expresso. Eis por que os crentes podem orar a Deus em silêncio, em seus pensamentos. Ver nota teológica “A Onisciência de Deus” no final do artigo.
O Senhor põe seus limites – Tu me cercas – ao redor das ações do salmista, para guiá-lo na vida
2. Salmo 139.7–10
Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá.
A presença pessoal de Deus está em toda parte e em toda a criação. A ideia que subjaz essas perguntas retóricas é que o salmista não pode ir a parte alguma que esteja fora do campo de visão de Deus. Jonas aprendeu essa lição quando tentou fugir da comissão de Deus para pregar aos ninivitas.
O salmista expressa a onipresença de Deus por meio de uma série de contrastes – céus… abismo (ou Sheol) –. O primeiro contraste é espacial — Deus está no céu; sua presença alcança até mesmo o Sheol [abismo]. Contudo, a esperança da vida no além-túmulo resplandece por todo o salmo (v. 10).
Um merismo – asas da alvorada… nos confins dos mares – que significa do oriente ao ocidente, ou seja, em todas as partes da terra. Ver nota no versículo 3.
A expressão “me haverá de guiar a tua mão” não significa apenas que Deus verá o salmista onde
quer que ele esteja, mas que o Senhor estará ali para guiá-lo e também para sustentá-lo. Ver nota teológica “A Onipresença de Deus”, na p. 1305.
3. Provérbios 15.3
Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons.
Ver 2 Crônicas 16.9; Salmos 33.13-15. Os sábios olhavam, às vezes, para além dos eventos observáveis e da retribuição natural, a fim de lembrarem da realidade da justiça divina.
4. Jeremias 1.5
Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações.
A criação e a eleição de Jeremias – te formasse… te conheci – por parte de Deus caminham juntas (quanto ao verbo “conhecer” no sentido de “escolher”, ver Gn 18.19; Am 3.2). Essa separação feita antes do nascimento é a base da função profética de Jeremias. Compare também Moisés, cuja narrativa de nascimento (Êx 2) tem o mesmo significado, e Paulo (Gl 1.15). Não é possível recusar o comissionamento soberano de Deus.
A mensagem de Jeremias é principalmente para Judá, mas ele também tem palavras de julgamento para outras nações (25.8-37; 46–51) – às nações –. Esses oráculos de julgamento contra as nações visam encorajar o povo de Deus em relação ao fato de que a aliança de Deus com Abraão, em Gênesis 12.1-3, ainda está intacta, pois essa aliança promete julgamento sobre aqueles que fizeram mal a Israel.
5. Jeremias 23.23-24
Acaso, sou Deus apenas de perto, diz o Senhor, e não também de longe? Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? — diz o Senhor; porventura, não encho eu os céus e a terra? — diz o Senhor.
Nada, perto ou longe, pode escapar do conhecimento de Deus (Sl 139.2; Am 9.2, 3). O Senhor não está preso a uma localização geográfica específica, como os deusespagãos estão.
Ver nota teológica “A Onipresença de Deus” no final do artigo.*
6. Lucas 12.6–7
Não se vendem cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos pardais.
O asse equivale a assarion, uma moeda que valia 1/16 de denário (o salário típico de um dia). Embora cinco pardais valessem mais ou menos o pagamento de uma hora, Deus se lembra de todos eles.
O temor reverente de Deus pode livrar alguém do medo paralisante do dano que os inimigos humanos podem causar quando se reconhece que somente ele pode finalmente infligir destruição, e que aquele que valoriza até mesmo os pardais valoriza muito mais seus filhos humanos.
7. Salmo 33.13–14
O Senhor olha dos céus; vê todos os filhos dos homens; do lugar de sua morada, observa todos os moradores da terra.
Os versículos 13-19 oferecem louvor pelos olhos vigilantes de Deus.
Em outros lugares nos Salmos, Deus olha dos céus para sentir compaixão de seu povo (80.14; 102.19; cf. Lm 3.50).
8. Romanos 8.29
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
Os vv. 29 e 30 explicam o propósito de Deus (v. 28). É um plano de graça soberana e salvadora, dando a todos os que creem o direito de traçar a origem de sua fé e sua salvação na decisão eterna de Deus de levá-los à glória, bem como o direito de olhar para essa glória como uma certeza garantida. O destino designado para os crentes (conformação com Cristo e glorificação com ele) flui da presciência divina. Aqui são pessoas, e não eventos e fatos, que se diz que Deus conhece de antemão. Deus realmente vê de antemão os eventos, mas a ênfase de Paulo aqui é que Deus escolhe, por iniciativa própria, os objetos de amor ativo e salvador. “Conhecer” implica ter um relacionamento íntimo pessoal, e não meramente conhecimento de fatos e circunstâncias (Gn 4.1; Am 3.2; Mt 1.25). Assim, a expressão “aos que de antemão conheceu” equivale aos “eleitos”, aqueles que Deus amou, individual e pessoalmente, antes de serem criados (Ef 1.3, 4). Isso é especialmente evidente em Romanos 11.2 e 5: “Deus não rejeitou o seu povo, a de antemão conheceu… sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça”. Aqui, “de antemão conheceu” é o paralelo direto de “não rejeitou” e, em seguida, é explicado por “eleição da graça”.
9. Hebreus 4.12–13
Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar conta.
O argumento precedente (3.7–4.11) ilustrou como o poder da Palavra de Deus expôs a falta de fé da geração que peregrinou no deserto e como a Escritura (por exemplo, Salmo 95) penetra e julga aqueles a quem convida hoje, enquanto adverte sobre o engano do pecado (3.13) e a possibilidade de ficar aquém (v. 1). A Palavra de Deus continua a agir da mesma maneira na era da nova aliança.
Embora alguns encontrem aqui em “dividir alma e espírito, juntas e medulas” apoio para a opinião de que um ser humano é uma tricotomia, consistente de corpo, alma e espírito, o contexto é contrário a essa ideia. Em vez disso, o versículo enfatiza o poder da Palavra de Deus para alcançar os recônditos mais profundos de uma pessoa. O objetivo do autor não é dividir pessoas em partes constituintes. Além disso, se a ideia de divisão fosse a intenção, esperaríamos que o autor dissesse “ossos e medulas”, em vez de “juntas e medulas” (cf. a forma semelhante de expressão em Lc 10.27).
10. Atos 17.24-28
O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais; de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e aos limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração.
Os epicureus concebiam os deuses como distantes, não envolvidos nos afazeres humanos. Os estoicos pensavam no divino como um princípio de razão que permeia o cosmos. Paulo anuncia o Deus que é distinto do universo e o transcende (ao contrário do estoicismo), mas também (ao contrário do epicurismo) profundamente envolvido com suas criaturas, dando a todos “vida, respiração e tudo mais” (v. 25) e designando o tempo e o lugar de cada nacionalidade (v. 26; ver Dt 32.8, 9).
Toda a raça humana descende de Adão – de um só –, seu representante pactual original, cuja decisão afetou todos os seus descendentes concebidos de maneira natural (Rm 5.12-21; 1Co 15.21, 22). Ver nota teológica “Pecado Original”, na p. 17.
Em outra passagem, Paulo (ecoando Sl 14.1-3) diagnostica francamente a rebelião inata de toda a raça humana sem a graça renovadora de Deus. “Não há quem busque a Deus; todos se extraviaram” (Rm 3.11-12). Para os filósofos atenienses, o argumento de Paulo é que a revelação geral de Deus torna os gentios indesculpáveis, por adorarem falsos deuses. O dom de Deus de “vida, respiração e tudo mais” (v. 25) para toda a humanidade deve levar toda a raça humana a desejar conhecer seu Criador. Eles não podem justificar sua idolatria alegando que a revelação de Deus no universo criado é insuficiente, porque ele não está realmente “longe de cada um de nós” nessa revelação geral, como os poetas pagãos reconheceram (v. 28).
Citando um poeta do século VII a.C., Paulo diz que Deus trouxe todas as pessoas à existência e que elas existem tão somente pela providência divina. No mundo antigo, os três grandes mistérios da filosofia e da ciência eram as questões da vida, do movimento e do ser. Ver nota teológica “Revelação Divina”, na p. 850.
*A onisciência de Deus
A palavra onisciência significa “ter todo (oni) o conhecimento (ciência)”. É uma palavra aplicada somente a Deus. Somente um ser que é infinito e eterno é capaz de conhecer tudo. O conhecimento de uma criatura finita é sempre limitado por um ser finito.
Deus, por ser infinito, é capaz de ter ciência de todas as coisas, entender todas as coisas e compreender todas as coisas. Ele nunca aprende nada e nunca adquire conhecimento. O futuro, o passado e o presente são totalmente conhecidos por Deus. Ele não é surpreendido por nada.
Porque o conhecimento de Deus excede o nosso conhecimento (é de um tipo mais elevado), alguns cristãos acreditam que, em tipo, o pensar de Deus difere radicalmente do nosso. Por exemplo, tornou-se comum o fato de os cristãos afirmarem que Deus age com uma lógica diferente da nossa. Esse conceito é conveniente quando deparamos com dificuldades em nossa teologia. Quando nos vemos afirmando ambos os polos de uma contradição, podemos aliviar nossa tensão ao apelarmos para a forma diferente de lógica com que Deus age. Podemos dizer tranquilamente: “Isso pode ser contraditório para nós, mas não é para a mente de Deus”.
Essa espécie de argumentação é fatal ao cristianismo. Por quê? Se Deus tem realmente uma forma de lógica diferente pela qual o que é contraditório para nós é lógico para ele, então não temos razão para acreditar numa única palavra da Bíblia. O que quer que a Bíblia nos diga pode significar o oposto exato para Deus. Na mente de Deus, bem e mal podem não ser opostos, e o Anticristo pode ser realmente Cristo.
O conhecimento superior de Deus lhe permite resolver mistérios que nos deixam perplexos. Mas isso aponta para uma diferença de grau no conhecimento de Deus, e não para uma diferença no tipo de lógica que Deus usa. Porque Deus é racional, não pode harmonizar contradições.
A onisciência de Deus também se desenvolve a partir de sua onipotência. Deus não sabe tudo apenas porque aplicou seu intelecto superior a um estudo solene do universo e de tudo que ele contém. Não, Deus sabe tudo porque criou tudo e desejou tudo. Como governante soberano do universo, Deus o controla. Embora alguns teólogos tenham procurado separar esses dois fatos, é impossível saber tudo sem controlar tudo, assim como é impossível controlar tudo sem saber tudo. Assim como todos os atributos de Deus, esses são codependentes: duas partes necessárias do todo.
A onisciência de Deus, como sua onipotência e sua onipresença, também está relacionada ao tempo. O conhecimento de Deus é absoluto no sentido de que ele é para sempre ciente de todas as coisas. O intelecto de Deus é diferente do nosso porque não tem de “acessar” informações, como um computador que recupera um arquivo. Todo o conhecimento está sempre diretamente diante de Deus.
O conhecimento de Deus de todas as coisas é uma espada de dois gumes. Para o crente, a ideia oferece segurança — Deus está no controle e entende tudo. Deus não se deixa surpreender pelos problemas que nos deixam perplexos. Para os incrédulos, porém, a doutrina ressalta o fato de que as pessoas não podem se esconder de Deus. Os pecados delas estão expostos. E, como Adão, elas procuram escondê-los. No entanto, não há nenhum lugar que o olhar de Deus, em amor ou em ira, deixe de alcançar.
A onisciência de Deus também é parte crucial da promessa de Deus de realizar justiça no mundo. Para um juiz dar um veredicto perfeitamente justo, primeiro tem de conhecer todos os fatos. Nenhuma evidência está oculta da averiguação de Deus. Ele conhece todas as circunstâncias atenuantes.
Ministério Fiel Apoiando a Igreja de Deus

