Resumo: Charles Bridges alerta para um dos perigos mais sutis e destrutivos do ministério cristão: o orgulho espiritual. Em meio aos elogios, à popularidade e ao sucesso, o coração pode ser tentado a buscar a própria glória. Este texto nos convida à humildade, à vigilância e à dependência constante da graça de Deus.
Um dos mais profundos observadores do coração observou que o orgulho espiritual oferece a Satanás sua principal vantagem sobre o cristão.[1] E, de fato, muitas circunstâncias (triviais em si mesmas, mas acumulando terrível força de causas incidentais) aumentam a chama secreta; e, na destrutividade do resultado, somos levados a exclamar: “Vede como uma fagulha põe em brasas tão grande selva!”[2] Um ministro afetuoso e dedicado é honrado por Deus e aceitável para seu rebanho. Alguns o consideram um oráculo e estão quase prontos, como em Listra,[3] a lhes fazer sacrifícios. Que grande parcela de humildade, que suprimento incessante da graça divina é necessário para resistir a uma tentação que cai tão fortemente com o princípio egoísta do coração natural! “Devemos tomar muito cuidado ao nos esforçarmos para destruir os ídolos externos, ou os ídolos do vício em outros, para não nos colocarmos, insensivelmente, como substitutos em seu lugar.”[4] Os pescadores bem-sucedidos precisam de vigilância especial, “por isso, oferecem sacrifício à sua rede e queimam incenso à sua varredoura”.[5] Devemos, de fato, trabalhar e orar sem cessar pelo sucesso ampliado. No entanto, nessa oração às vezes “não sabemos o que pedimos”. Uma época de notável prosperidade provavelmente será uma hora de terrível tentação para nossas almas.
Cotton Mather parece ter sido severamente exercitado sobre esse assunto, logo que entrou no ministério. Devemos nos referir a sua vida para um exame mais minucioso, em substância, da seguinte forma:
Apreensões de orgulho — o pecado de jovens ministros — a trabalhar no meu coração me encheram de inexprimível amargura e confusão diante do Senhor. Descobri que, quando deparava com um aumento na oração ou pregação, ou respondia a uma pergunta pronta e adequadamente, era capaz de aplaudir a mim mesmo em minha própria mente. Eu desejava a preeminência acima do que pertencia à minha idade ou valor. Esforcei-me, portanto, para ver meu orgulho como a própria imagem do Diabo, contrário à graça e imagem de Cristo, como ofensa contra Deus, e como uma forma de entristecer seu Espírito, como a mais irracional tolice e loucura para alguém que nada tinha de excepcionalmente excelente e que tinha uma natureza tão corrupta, infinitamente perigosa e pronta para provocar a Deus a ponto de fazê-lo privar-me de minhas capacidades e oportunidades. Portanto, resolvi carregar meu coração enfermo para ser curado por Jesus Cristo, o Médico completamente suficiente, para vigiar contra meu orgulho, para estudar muito sua natureza e agravos, e a excelência da graça contrária.
Há uma verdade muito importante e significativa na observação de que o orgulho espiritual é “o pecado de jovens ministros” — o inimigo com o qual o conflito incessante deve ser mantido. Como Melâncton, eles não aprendem rapidamente a força do “velho Adão”. A empolgação da novidade dá uma energia poderosa ao seu trabalho. Talvez uma atmosfera de popularidade os rodeie. Tudo isso tende a cegar sua percepção do “mistério da iniquidade” que opera em nosso interior, e a despertar a autoconfiança, até que pareçam quase aspirar a uma parceria com Deus na salvação das almas; ou pelo menos conceber que seus serviços são da maior importância nas dispensações divinas. Vox populi[6] é o seu lema secreto. O sopro da multidão é sua vida. “Boas notícias” são, portanto, um teste muito mais próximo do princípio interno do que “más notícias”. Há grande conhecimento do caráter neste aforismo sagrado: “Como o crisol prova a prata, e o forno, o ouro, assim, o homem é provado pelos louvores que recebe.”[7] Como poucos de nós poderíamos dizer com Henry Martyn: “Os homens frequentemente me admiram, e estou satisfeito; mas eu abomino o prazer que sinto!”[8]
O egoísmo é, de fato, a característica particular desse pecado. É como se não pudéssemos ter nenhum interesse relativo na conversão de pecadores por meio de outro instrumento que não o nosso; ou como se medíssemos nossa consideração pela glória de Deus pelas oportunidades oferecidas para a exibição de nossa própria glória. Desejamos eminência em vez de utilidade. Queremos permanecer e realizar o trabalho sozinhos. Em vez de nos alegrarmos com as realizações espirituais de outros, relutamos em admirar talentos superiores, mesmo quando consagrados à causa de nosso grande mestre. Não podemos suportar nada que brilhe muito perto de nós e que provavelmente eclipsará nosso próprio brilho, seja na excelência superior dos dons, seja em seu uso mais diligente. Quão diferente era o espírito do legislador judeu, que desejava que todas as pessoas compartilhassem de seus dons extraordinários![9] Quão diferente era o temperamento do grande apóstolo, que podia regozijar-se na extensão do evangelho mesmo quando este era espalhados por alguns que não possuíam motivações cristãs e pela boca daqueles que se posicionavam em oposição gratuita aos seus esforços desinteressados![10] Será que podemos antecipar alguma medida de influência celestial em nosso trabalho, a menos que estejamos resistindo a esse zelo anticristão, e a menos que a consciência de nossa disposição secreta para sua indulgência nos cubra de autohumilhação diante de nosso Deus? Pois nenhum de nós deve se considerar fora do alcance dessa armadilha. A natureza humana nunca pode ser elevada à distinção e proeminência sem ser tentada à vaidade. Uma sutil influência pestilenta respira ao redor dos degraus do púlpito e na mais pura atmosfera de sagrada consagração.
O obstáculo desse pecado ao progresso de nosso trabalho pode ser argumentado a priori, a partir do caráter de um Deus zeloso, que declara: “A minha glória, pois, não a darei a outrem.”[11] E que, portanto, explodirá todas as tentativas de arrogar a honra da agência divina como usurpação de sua prerrogativa soberana. Também pode ser evidenciado, na prática, pelo testemunho de consciência, observação e experiência. O “machado” não é impotente quando ousa “vangloriar-se daquele que corta com ele”?[12] Não descobrimos uniformemente que aqueles ministérios que nos trouxeram mais honra entre os homens foram escassamente favorecidos com os sinais da presença e poder de nosso mestre? É provável que nunca estejamos tão bem em nosso trabalho como quando nos contentarmos em parecer como Paulo em Corinto — “Nós somos loucos por causa de Cristo, […] fracos […] e desprezíveis”[13] — e prontos a declarar com ele, “de boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo”.[14] É de pouca importância comparativa que nosso ministério ostente a marca do talento, erudição ou paixão. Mas, se fosse caracterizado pelo sabor da humildade e do amor, seria mais bem adaptado para exibir as glórias de Emanuel e deveras honrado com as manifestações de seu Espírito.

O texto acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Fracasso pastoral, de Charles Bridgs, publicado pela Editora Fiel.
[1] Os pensamentos do reitor Edwards sobre o avivamento na Nova Inglaterra. Jonathan Edwards, 7oughts on the Revival of Religion in New England, 1740: To which is Prefixed, A Narrative of the Surprising Work of God in Northampton (Glasgow: 1899).
[2] Tiago 3.5.
[3] Atos 14.13.
[4] Quesnel sobre Atos 14.15. “A própria mente costuma mentir a si mesma acerca de si mesma e finge por boa obra amar o que não ama; pela glória do mundo, porém, finge não amar o que ama.” — Gregório, de cura pastorali. Compare com Oliver Bowles, De pastore evangelico tractatus, livro 1, capítulo 8.
[5] Habacuque 1.16.
[6] A voz do povo.
[7] Provérbios 27.21. “É muito incomum que os homens não recebam pelo menos uma parte da glória que lhes é oferecida. Esta é a pedra de toque pela qual se prova a fidelidade do ministro de Cristo. Valorizamos a nós mesmos ao rejeitar elogios grosseiros e bajulação extravagante, porque não nos tornaríamos ridículos. Porém, quando o louvor é fino e delicado, e o incenso preparado com arte, quão raramente nos recusamos a ser intoxicados por ele!” — Quesnel sobre Atos 14.13-14. “Se o ministro da palavra é louvado, ele vive em perigo.” — Agostinho. “Não são nossos melhores amigos aqueles que agitam o orgulho de nossos corações pela lisonja de seus lábios. As graças de Deus nos outros (confesso) devem ser aceitas com gratidão, e sob desencorajamentos e tentações devem ser faladas com sabedoria e modéstia; mas os cristãos mais fortes dificilmente mostram sua própria fraqueza em qualquer coisa mais do que em ouvir seus próprios louvores. Cristão! Sabes que carregas pólvora contigo. Deseja que aqueles que carregam fogo mantenham distância de ti. É uma crise perigosa, quando o coração orgulhoso encontra lábios lisonjeiros. As repreensões fiéis, oportunas e discretas nos são muito mais seguras e vantajosas para mortificar o pecado em nossa alma.” —John Flavel, The Method of Grace: In the Holy Spirit’s Applying to the Souls of Men the Eternal Redemption Contrived by the Father and Accomplished by the Son (American Tract Society, 1845). O Sr. Walker menciona entre “as coisas principais a serem lamentadas: as obras da presunção — especialmente em falar ou ouvir o que foi feito por mim, algo que me custou muita autocondenação e necessitou muito temor e vigilância para lhe opor. No começo eu vi pouco disso, e menos de sua maldade; e, embora agora só raramente experimente o que chamo de presunção sensata, a cócega agradável do coração, ainda assim tenho motivos para temer uma coisa pior: uma auto-opinião mais firme que quer receber elogios conforme devido, e espera submissão nos outros”. — Edwin Sidney, The Life and Ministry of the Rev. Samuel Walker, B.A., Formerly of Truro, Cornwall, 2ª ed. rev. ampl. (Londres: R. B. Seeley and W. Burnside, 1838), p. 453.
[8] John Sargent, Memoir of the Rev. Henry Martyn, p. 43. A mesma ternura e autossuspeita cristã apareceram no relato de seu sucesso ministerial. “Fui encorajado e revigorado além do que se possa descrever, e só podia me oferecer alegre e agradecido ao serviço de Deus: mas, ao mesmo tempo, foi um freio em minha mente refletir que, embora Deus possa em sua soberania abençoar sua palavra pela minha boca, eu não era por isso menos pecaminoso nas minhas ministrações”.
[9] Números 11.29.
[10] Filipenses 1.15-18.
[11] Isaías 42.8.
[12] Isaías 10.15.
[13] 1 Coríntios 4.10.
[14] 2 Coríntios 12.9.
