Neste trecho de A escravidão da vontade, Martinho Lutero responde às objeções de Erasmo acerca da soberania de Deus e do endurecimento do coração de Faraó. Argumentando a partir das Escrituras, especialmente Romanos 9, Lutero defende que a salvação e a condenação não podem ser compreendidas à parte da vontade soberana de Deus. Ao confrontar a confiança humanista no livre-arbítrio, ele reafirma a centralidade da graça divina na conversão do pecador. Uma reflexão profunda sobre a natureza humana caída, a eleição e a autoridade da Palavra de Deus.
Você interpreta as palavras: “…eu lhe endurecerei o coração…”, como se elas significassem: “Minha longanimidade, mediante a qual tolero o pecador, e que leva outros ao arrependimento, faz apenas com que Faraó torne-se cada vez mais obstinado em sua impiedade”. Você trata Romanos 9.18 e Isaías 63.17 da mesma maneira. Entretanto, eu tenho apenas a sua palavra de que essas são as explicações corretas. É verdade que você cita Orígenes e Jerônimo, mas quem pode convencer-me de que eles estavam com a razão?
Em suma, o resultado da sua “explicação” é inverter o sentido desses textos. Deus diz: “Endurecerei o coração de Faraó”. Você faz Deus dizer: “Faraó endurecerá o seu próprio coração”. E atribui o endurecimento do coração de Faraó à misericórdia divina. Se você continuar assim, terminará por transformar a misericórdia de Deus em ira e a ira de Deus em misericórdia. Naturalmente, sabemos que a misericórdia de Deus pode produzir o endurecimento do coração de algumas pessoas, assim como a sua ira. Sabemos também que a misericórdia de Deus abranda alguns corações, assim como a sua ira. Todavia, isso não é desculpa para agora confundirmos a ira e a misericórdia de Deus. Ele disse que endureceria o coração do Faraó, e então o afligiu e castigou com dez pragas. E você quer transformar essas pragas em atos da misericórdia de Deus! Que ideia mais ultrajante poderia ser ouvida do que essa? A misericórdia de Deus se manifestou também quando ele suspendeu vez após vez cada praga, quando o Faraó parecia ter se arrependido; porém aquelas pragas foram o meio usado por Deus para castigar o Faraó, e endurecer seu coração.
Suponhamos que Deus endureça corações quando exerce a sua longanimidade, deixando de dar o imediato castigo. Ainda assim o coração dos homens não será quebrantado senão pelo Espírito de Deus. Portanto, não importa qual processo seja usado, os corações são endurecidos segundo a vontade de Deus e também são quebrantados por ela.
Você diz: “Assim como sob os mesmos raios de sol a lama é endurecida e a cera derretida; e, após as mesmas chuvas, o terreno cultivado produz fruto, e o terreno sem cultivo produz espinhos, assim também, mediante a mesma longanimidade de Deus, alguns homens são endurecidos, e outros se convertem”. Entretanto tal ilustração em nada ajuda a confirmar sua posição. Você garante que todas as pessoas são idênticas
— todas possuem “livre-arbítrio”. Todavia é a eleição por Deus que estabelece a distinção entre os homens. Sem a eleição divina, todos estão livres apenas para desafiar a Deus. Mas, você afirma que não há eleição. O resultado disso é que você está diante de um Deus impotente, e homens e mulheres estão sendo salvos ou condenados sem o conhecimento dele. Deus meramente exibe diante deles a sua bondade, e em seguida, nada mais pode fazer, senão, talvez, ir participar de algum banquete! Isso é o máximo que a razão humana pode conceber. Porém o que você fez foi confundir toda a questão, criando dois tipos de “livre-arbítrio”, um representado pela cera e pela lama, e outro pelo terreno cultivado e o sem cultivo. Essas ilustrações são inúteis para você. Só fariam sentido se comparássemos o evangelho com o sol e com a chuva. E se comparássemos os eleitos com a cera e o terreno cultivado; e os não-eleitos com a lama e com o terreno sem cultivo. O evangelho torna pior a condição dos não-eleitos e aperfeiçoa os eleitos.
Você inventou a “explicação” de que o Faraó endureceu o seu próprio coração em face da bondade de Deus, porque, segundo você afirma, é absurda a ideia de que um Deus que é bom pudesse ter feito isso. Mas, quem diz que essa ideia é absurda? Somente a razão humana sente-se ofendida diante de tal ideia. Compete-nos aquilatar as ações divinas mediante a razão humana, a qual é cega, surda e ímpia? Com base em tais alicerces, a fé cristã inteira é absurda. Conforme Paulo diz, em 1 Coríntios 1.23, é uma loucura para os gentios e uma pedra de tropeço para os judeus, que Deus pudesse ser um homem, filho de uma virgem, crucificado e se assentasse à mão direita do Pai. Pela razão humana, é certamente absurdo acreditar em tais coisas.
Porém, seja como for, você não esclareceu a questão, ao asseverar que o homem é o responsável pelo endurecimento de seu próprio coração. Ainda precisa explicar-nos como é que Deus pode exigir que o “livre-arbítrio” faça coisas impossíveis. Como é que Deus poderia acusar o “livre-arbítrio” de pecaminoso se o mesmo não pode agir de maneira diferente? Você apela para a razão humana. Essas coisas são igualmente absurdas para a razão humana.
Permanece o fato de que a atuação de todo o “livre-arbítrio” no mundo não poderá jamais impedir que os homens endureçam os seus corações, sem que haja a operação do Espírito Santo.
Você tem dito que Deus não pode ter feito do Faraó o homem corrupto que ele era, pois Deus viu que tudo quanto fizera era bom. Porém esta é obviamente uma referência à criação original de Deus antes da Queda. A partir de então, todos nós, incluindo o Faraó, pertencemos a uma raça ímpia e corrompida. E mesmo que essas palavras façam alusão às obras de Deus após a Queda, elas referem-se à maneira como Deus vê as coisas, e não os homens. Muitas coisas que são boas aos olhos de Deus, são más aos nossos olhos. Por exemplo: as aflições, as tristezas, os erros, o inferno, e todos os mais excelentes feitos de Deus parecem maus aos olhos do mundo. O evangelho é o melhor de todos esses feitos e não há nada, entretanto, que o mundo odeie mais.
O uso que Deus faz da natureza humana
Algumas pessoas talvez queiram saber como Deus produz em nós maus efeitos, endurecendo-nos, entregando-nos aos nossos desejos e levando-nos a praticar o erro. Devemos, entretanto, nos contentar com aquilo que a Bíblia nos diz.
A minha resposta é que à parte da graça da eleição, Deus trata com os homens em consonância com a natureza deles. Visto que a natureza deles é maligna e pervertida, quando Deus os impulsiona para que entrem em ação, seus atos são malignos e pervertidos. Imagine um homem que esteja andando em um cavalo com apenas duas ou três pernas saudáveis. Sua cavalgada corresponderá ao que seu cavalo é capaz. Se o cavalo vai mal, o que pode fazer o cavaleiro? O tal homem está cavalgando em companhia de homens com cavalos sãos; embora os demais estejam se saindo bem, seu cavalo estará limitado na sua enfermidade, enquanto não for curado. Portanto, você vê que quando Deus faz coisas através de homens maus, coisas más acontecem. O próprio Deus, entretanto, não pode fazer o mal. Deus é soberano. O homem ímpio é uma criatura de Deus, sujeito ao controle divino. Deus não suspende a sua soberania, só por causa da vileza do homem. O ímpio não pode alterar a sua condição. Como resultado, o homem não pode deixar de pecar e de continuar em seu caminho desviado, a menos que, e até que seja endireitado pelo Espírito de Deus.
O método usado por Deus para endurecer o homem
Os ímpios não se interessam por agradar a Deus. Interessam-se apenas em agradar a si mesmos. Eles odeiam e lutam contra qualquer coisa que os impeça de desfrutar de seus desejos egoístas. Isso se verifica, especialmente, quando os ímpios são confrontados com o evangelho. No evangelho, Deus põe uma barreira aos desejos corrompidos dos homens, bem como ao egocentrismo deles, de tal modo que se tornam amargos e contrários a Deus e à sua Palavra.
Deus não cria uma nova maldade no coração dos homens. Antes, ele se utiliza do mal que já se encontra no coração deles, visando os seus próprios bons e sábios desígnios. Em 2 Samuel 16.10, Davi declara acerca de Simei:
“Ora, deixai-o amaldiçoar; pois, se o SENHOR lhe disse: Amaldiçoa a Davi, quem diria: Por que assim fizeste?” Entretanto, Deus não dera qualquer mandamento para que Simei amaldiçoasse a Davi. Antes, a ação soberana de Deus assegurou que a vontade maligna de Simei faria aquilo que lhe era natural, no momento e no lugar tencionados por Deus.
O endurecimento do coração de Faraó
Tendo essas coisas em mente, voltemos ao caso do Faraó. Deus não transformou a natureza do Faraó, por meio do seu Espírito Santo. A vontade de Faraó permaneceu ímpia e maligna. Faraó estava plenamente seguro de sua grandeza e autoridade. Assim, quando Deus apresentou algo que o ofendia e irritava, ele não pôde deixar de reagir de maneira maldosa. Ele foi ficando mais e mais obstinado, recusando-se a dar ouvidos à razão.
As palavras das Escrituras precisam ser compreendidas em conformidade com o seu sentido claro e evidente. Quando Deus disse: “Endurecerei o coração de Faraó”, ele estava dizendo: “Farei com que o coração do Faraó se endureça”. Deus, com a mais absoluta certeza, sabia e, com a mais absoluta certeza, declarou que o coração do Faraó se endureceria. Com idêntica certeza, Deus sabia que o Faraó não poderia impedir as ações divinas contra si. E Deus igualmente sabia que, como resultado disso, o Faraó certamente tornar-se-ia pior. Uma vontade maligna pode querer somente fazer o mal. Mesmo quando Deus traz algum bem para exercer uma influência benéfica — como no caso do evangelho — a vontade maligna só pode tornar-se pior. Ela torna-se mais endurecida. Por que Deus não cessa de fazer pressão que, certamente, produzirá maus resultados? Isso é o mesmo que pedir a Deus que deixe de ser Deus. Não podemos realmente imaginar que Deus deixará de fazer o bem, somente porque os ímpios sempre reagirão adversamente.
Por que Deus não altera a vontade perversa de pessoas como o Faraó? Essa questão toca na vontade secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis (Rm 11.33). Se alguém que é orientado por sua razão humana, fica ofendido por causa disso, que assim seja. As queixas nada mudarão, e os eleitos de Deus permanecerão inabaláveis. Poderíamos também perguntar por que Deus deixou que Adão caísse! Não devemos tentar estabelecer regras para Deus. Aquilo que Deus faz, não é correto porque o aprovamos, mas porque Deus assim o desejou. A única alternativa é estabelecer um outro criador, superior a Deus!
Retornemos ao texto. Você ignora o sentido claro do texto porque não o aprecia, e em seguida apresenta a sua própria “explicação”. Todavia sempre devemos examinar um texto à luz do seu contexto, para descobrir o alvo e o propósito do autor. O sentido claro é que Deus teria endurecido o coração do Faraó por meio das pragas. Mas você diz que esse endurecimento ocorreu por intermédio da longanimidade de Deus, e não para a imediata punição do Faraó. No entanto, consideremos o contexto. Deus tinha esperado pacientemente por longo tempo, enquanto o Faraó estava infligindo grande sofrimento sobre os filhos de Israel. Obviamente que, quando o Senhor disse que endureceria o coração do Faraó, tencionava algo diferente — uma mudança em sua longanimidade e não a continuação da mesma atitude longânime. Sabemos por que houve uma modificação na atitude de Deus. Ele tencionava livrar o seu povo da servidão do Egito. Queria dar ao seu povo razões adicionais para confiarem nele. A resistência de Faraó atrairia mais pragas e cada nova praga demonstraria o poder de Deus. E não somente isso; a cada nova praga, Moisés registra que o coração do Faraó se endurecia, conforme o Senhor havia dito. E isso servia para maior fortalecimento da fé dos israelitas em Deus.
Você deseja que o Faraó tenha um arbítrio que é livre para submeter-se ou para rebelar-se, e também insiste que esse texto indica que Faraó endureceu o seu próprio coração, não Deus. Mas veja o que isso significaria. Deus seria dependente do “livre-arbítrio” do Faraó e não poderia ter dito com antecedência, a Moisés e aos israelitas, o que aconteceria. Porém, conforme a sucessão dos fatos, Deus endureceu o coração de Faraó. Deus levou Faraó à ação e Faraó não pôde agir senão em harmonia com a sua própria natureza maligna. Assim vemos que essa passagem não pode ser usada para apoiar, mas apenas para argumentar fortemente contra o “livre-arbítrio”.
A razão natural deve admitir a soberania da vontade de Deus
A razão natural precisa admitir que Deus seria uma divindade mui-to débil e patética se a sua presciência fosse indigna de confiança, e se pudesse ser contrariada pelos acontecimentos. Naturalmente, os homens objetarão ao pensamento que Deus — que é bom — os possa abandonar — os possa abandonar, endurecer e condenar, como se ele tivesse prazer com os pecados e tormento eterno deles. Já tropecei, eu mesmo, nesse ponto por mais de uma vez, caindo no mais profundo poço de desespero, desejando nun-ca ter nascido. (Isso sucedeu antes de eu reconhecer quão saudável é esse desespero, e quão próximo ele está da graça divina.) Essa é a razão pela qual os homens têm tentado encontrar “explicações” e manter seus próprios raciocínios em detrimento do que é plenamente ensinado pela Palavra de Deus.
Porém, mesmo que os raciocínios da incredulidade se sintam ofendidos, eles são forçados a admitir a soberania da vontade de Deus, ainda que a Bíblia não existisse, porquanto duas coisas estão gravadas na consciência dos homens — o fato que Deus é soberano e que ele conhece de antemão todas as coisas, sem exceção ou equívoco.
A soberania de Deus e o “livre-arbítrio” não podem conviver
Temos aqui uma demonstração do seu raciocínio, Erasmo. Você diz: “No tocante à inquebrantável presciência de Deus, Judas foi fatalmente destinado a tornar-se um traidor; mesmo assim, Judas era capaz de mudar a sua vontade”. Você percebe o que está dizendo? Se você está certo, então Judas tinha a capacidade de alterar a presciência de Deus, fazendo-a indigna de nossa confiança. Entretanto, você não trata com o problema. Você age como um capitão que conduz o seu exército até ao campo de batalha, para então abandoná-lo quando sua ajuda é mais necessária! Você passa a falar sobre algo diferente — se a vontade do homem é perturbada pela soberania de Deus. Eu faço uma pergunta, mas você responde outra! Porém, não o deixarei escapar do anzol tão facilmente. Você precisa enfrentar seu próprio dilema. Como é que esses dois conceitos podem concordar: “Judas pode desejar não trair” e “Judas deve necessariamente desejar trair”? Não são duas ideias diretamente opostas e contraditórias?
